segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Divórcio


"Seu dia nasce, sua mente dói...
Você descobre que todas as coisas gentis que ela disse, não fazem mais sentido. Ela acorda, e se maquia. Ela não tem pressa, Ela não precisa mais de você. E nos olhos dela você não vê nada. Nenhum sinal de amor atrás das lágrimas choradas pór ninguém! Um amor que devia ter durado anos! (...) (Beatles, for one). "

Entre folhas de papel rabiscado e uma mesa de vidro os dois estavam sentados em lados opostos. A caneta mexia grifando as exigências que logo eram debatidas entre os advogados. Parecia que o silêncio enfim havia chegado para os dois. Estavam diferentes um do outro, quietos e com olhos excessivos cheios de preocupação.
O homem olhava para os termos grifados e balançava a cabeça expressando um entendido constante. A mulher olhava o carpete azul, ainda meio fatigada com aquela situação. Tentava mostrar determinação, mas no fundo estava insegura, amedrontada com o futuro.
Com as mãos ela sufocava a bolsa de Capri enquanto sorria com lábios rubros expressando uma falsa determinação pessoal.
Por alguns instantes os dois se olharam! Durou menos de dez segundos e logo ambos cruzaram o rosto. Pareciam dois animais ariscos se estranhando, bichos que não se conheciam.
Na certidão de casamento ainda constava marido e mulher. No papel estavam juntos, só no papel! Porque quem visse ambos no mesmo recinto, nunca afirmaria que um dia aqueles dois estranhos haviam passado horas fazendo sexo pelos cômodos de um apartamento recém decorado. Ou que almoçavam juntos, jantavam juntos e depois dormiam juntos durante tantas noites em travesseiros quase colados.
Dois estranhos que se conheciam em tato carnal, em fases de lua... Que um dia quiseram ser mais que dois estranhos!
—De tudo meu amor serei atento! Antes e com tal zelo, e sempre tanto... Que mesmo em face do maior encanto... dele se encante mais meu pensamento...
—De quem é isso?
—Eu nem acabei e você já quer saber de quem é? Espera né!
—Tá! Tá! Continue!
—Quero vivê-lo em cada vão momento....E em seu louvor hei de espalhar meu canto!
E rir meu riso e derramar meu pranto...
—Ah! não gostei desse pranto...
—Por que?
—Ah sei lá! Pranto é uma coisa muito triste pra colocar num convite de casamento...
—Que droga Monica! Você não entende porra nenhuma de poesia!
—O que você disse?
—Que você não entende nada de poesia!
—Não! Não! Você disse aquela palavra que eu não suporto!
—Pranto?
—Não se faça de besta!
—As vezes você parece a minha mãe! Todo mundo tem direito de soltar um palavrão de vez em quando!
— Edú não to afim de discutir hoje!
—Posso continuar com o poema?
—Tá! Continue... Só espero que não tenha mais nada haver com pranto!
—Ao seu pesar ou seu contentamento... E assim, quando mais tarde me procure,quem sabe a morte, angústia de quem vive... Quem sabe a solidão, fim de quem ama... Eu possa me dizer do amor que tive! Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure!
—Sabe que eu gostei!
—Sério que gostou?
—Achei bonitinho esse final... Qual é o nome do poema?
—Soneto da...
—Da?
—Da fidelidade!
O pequeno trecho daquele soneto teve causa na conclusão de suas vidas. Ficou gravada em times “new roman” num negrito artesanal quase desenhado de nanquin. Se algo pudesse adivinhar o destino dos dois, seria aquela frase final, marcada na última linha de cada convite:

“Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure!”

Assim sem querer se realizou.
E em meio de tantos encontros, desencontros. Brigas e tomadas de sorvete no verão. Ali terminava os sonhos de filhos correndo. Nomes de meninos, sobrenomes que iam embora voltando a ser o que era: Nada.
Morrera tudo! A chama havia se apagado!
Mas nem sempre foi assim. Os dois tinham uma música bonita do Rufus Wainwright... Que uma vez tocou no fim de um filme quando se conheceram. E mesmo sendo o idioma francês (língua que nenhum dos dois compreendia bem). A canção permaneceu como trilha sonora do romance que nascia...
—Complainte de La butte!
Expôs a mulher.
—E como se diz isso?
Perguntou ele
—E eu sei lá! Acho que complainte é complainte mesmo! E La butte! É La búe...
—Bulie!
—Sem o li, faz biquinho igual no u!
—Assim?—Indagou ele com uma com lábios de peixe dizendo u.
—Que fofo esse biquinho!
Os dois riram naquele dia...
Sorrisos que não aconteciam mais. Só havia silêncio neles, silêncios nos olhos, na voz e no peito. De tal modo que a canção silenciava dentro de cada um. Com um piano constante e uma sanfona parisiense diminuindo a cada instante que os advogados carimbavam as folhas. E demarcavam o que iria para cada um.
—Está feito!
Falou o advogado da direita, do lado da mulher!
—Sim está feito!—Acrescentou o outro o advogado e logo continuou— Como vocês não tem filhos, o processo de separação conjugal foi mais simples...
Os advogados ainda esclareciam coisas como abandonar o nome de casado, e sobre o tempo que ambos haviam ficado juntos.
As palavras dissipavam no ar, alguns artigos lidos e tantos outros parágrafos quarenta e sete que pareciam entrar pelo ouvido e deixar um vazio de direito matrimonial no fundo de cada um. Paralisados uma parte deles pereciam sem se realizar... No intimo algo gritava, algo que tinha haver com alianças de ouro, com buques que atravessavam o salão de festa, na última palavra dita agora que se calava para sempre.
—Precisamos conversar!—Afirmou a mulher assim que ele entrou pela porta.
—Diga?
Ele largou a mala em cima da mesa e correu até a geladeira, procurando algo para beber!
—Quanto tempo faz Edú?
A voz dela foi quase encoberta pelo som da lata se abrindo.
—Tempo do que?
Indagou ele puxando um lugar na outra ponta da mesa.
—Do nosso casamento!
O assunto se lançou da boca dela!
—Por que está me perguntando isso! Aconteceu algo?
—Me diz Edú! Quanto tempo?
Os olhos da mulher estavam vermelhos. Notando a maquiagem borrada em volta dos cílios dela, ele subitamente deixou de tomar o liquido que estava na lata e respondeu:
—São dois anos Mô! Completa três em Janeiro!
—E o que temos além de brigas o tempo todo? O que temos além de você nunca saber o que eu sinto...
—Claro que eu sei como você se sente Monica...
—Sabe? Sabe que eu me sinto amargurada toda vez que você esquece que eu estou aqui em casa à noite? Sabe o quanto eu ainda me sinto frágil por... —Ela engasgou com o choro—Por ter abortado naquele ano!
Ele ficou estático. O trauma de ter perdido o único filho mexia com ele...
—O que você quer que eu diga? Que as vezes não suporto voltar pra casa e te ver com a cara presa no travesseiro. Sem me dizer boa noite! Sem sequer olhar na minha cara...
—E o que você quer que eu diga pra alguém que volta as quatro da manhã caindo de porre?
— Eu reconheço meu erro! Reconheço que fugi saindo e voltando tarde. Mas quantas vezes tentei te abraçar e você fugiu de mim! Quantas vezes eu me senti culpado e nem sabia o porque...
—Você nunca me entendeu Eduardo! Sempre...
—Nunca?—Gritou ele batendo a palma da mão no centro da mesa, a pancada balançou o objeto enquanto ele continuava— Se você fala isso porque sempre fiquei quieto nas nossas discussões!
Ela não disse nada. Olhava para decoração da cozinha. Decoração que ela sempre odiara.
—Eu me fazia de quieto, pra você gritar! Pra não te aborrecer por causa daquilo... Quantas vezes você quis discutir por falta de sentimento que você achava que eu não tinha! Quantas discussões nós tivemos porque você tem essa mania de achar que tudo não está bom! Eu odeio isso! Eu só queria chegar em casa e fingir que tudo está bem! Tomar um gole de cerveja e esperar que amanhã tudo vai se resolver!!
—Mas não vai Eduardo! Não vai!
Ela caiu em lágrimas longas. O ambiente ficou pesado e o barulho intenso do refrigerador (objeto que os dois tinham ganhado de presente de casamento) fechou o vazio da conversa. Ele a olhava ainda com o corpo quente de tensão, ela estava desgastada emocionalmente ferida pelas palavras dele, e pelas próprias palavras... Ferida pela vida conjugal que expirava. Nem parecia a mulher sorridente que tremia, anciosa que um dia subiu ao altar.
“Você, Carlos Eduardo Silva, aceita Monica Cristina Figueiredo como sua esposa e promete: amá-la...”
As palavras do padre vinham em sua mente. Enquanto a mulher ainda soluçava de choro.
”Fidelidade, amor e compreensão”
As palavras daquele juramento faziam com que ele se sentisse traidor do que havia aceitado. Ele traia o juramento... Traia porque sabia que seria melhor assim! Por mais mágoa que tivesse dela. Por mais que seu cérebro engatilhasse a fuga, o homem não agüentava ver a sua mulher em cacos...
—Monica
Disse ele quase sussurrando
—Talvez devêssemos...
Ele esperou até que ela prestasse atenção e logo continuou, tentando explicar o que nem ele mesmo sabia:
—Seguir um rumo diferente...
—Como assim?
Perguntou ela meio confusa tentando se recompor das lágrimas derramadas.
—Recomeçar!
—Como assim recomeçar?
—Seguirmos longe um do outro! Por novos caminhos!
—Você está falando em divórcio!
—Sim, eu acho que é isso mesmo!
A mulher ficou engolindo o assunto proposto. E quando ia dizer algo, talvez um “espere” ou um “ Você tem mesmo certeza disso” .
Ele deixou a mesa e saiu pela porta para rua. Ele jamais voltou! Assumindo pra si mesmo que a separação faria com que ambos se reconstruíssem.
Depois de algumas semanas a mulher segurou os papeis do divórcio pela primeira vez... As folhas bem grampeadas chegaram por intermédio do correio. Toda a preocupação que a ela sentia se transformou em mágoa... A mulher nunca o perdoou pelo ato final.
Ele no entanto não sentia lástima só medo de assumir que estava com medo. E como proteção para o próprio medo o homem se cercou de orgulho.
Os advogados posicionaram as folhas a serem assinadas...Os flashs do passado terminavam ali! As últimas assinaturas (feitas pelo antigo casal) transformavam para sempre o extinto casamento num eterno defunto velado em seu caixão.
Velavam a si mesmos, velavam o final da história.... Velavam o fim da união!
As alianças enfim enterradas! O ouro reluzente dentro de uma caixa pequena e apertada... Enferrujando cada letra do nome que ali estava gravado.
Os advogados fecharam as pastas, separando a burocracia, separando os dois.
E eles ganhavam a marca,”do casamento que não deu certo”.
Claro que ainda poderiam dizer para alguns que agora eram solteiros e omitir o estado civil de “divorciado” das folhas de pesquisa na rua. Mas no fim saberiam (cada um em seu íntimo) que um dia em algum mês eles haviam sido marido e mulher!
—Boa sorte daqui pra frente!
Desejou ele timidamente colocando o óculos de sol enquanto saiam do fórum!
—Pra você também!
Respondeu a mulher... Cruzando o lado oposto da avenida! Ambos ainda podiam escutar as batidas aflitas no coração... Que mesmo calado, triste e inconsciente dizia alto o último soneto, que queria ouvir. Talvez não fosse o coração, mas sim, um ator que interpretava na praça ali perto uma antologia poética do grande bardo carioca, completando as últimas palavras de fim...
E o soneto ecoou como último ditado para ambos, completando a sentença... Completando o divórcio!

“De repente do riso fez-se o pranto.... Silencioso e branco como a bruma, E das bocas unidas fez-se a espuma! E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento... Que dos olhos desfez a última chama! E da paixão fez-se o pressentimento... E do momento imóvel fez o drama! De repente, não mais que de repente,
Fez-se de triste o que se fez amante!!!!! E de sozinho o que se fez contente. Fez-se do amigo próximo o distante.Fez-se da vida uma aventura errante...

De repente, não mais que de repente.”

(Soneto da separação, Vinicius de Moraes).

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Quando um poeta morre...


Eu escrevi este texto enquanto escutava "The Scientist" caso alguém queira ter a mesma perspectiva que eu tive. Deixo aqui a dica, escute "The Scientist" enquanto lêem o texto! http://www.youtube.com/watch?v=tmjPrdTNxQ0 ).
Bom texto!
Cléber.

Segurei sua mão enquanto os teus lábios se mexiam... Eu puxei você até meus braços, enquanto minha pulsação disparava em sentimentos nostálgicos... Acariciei o teu rosto pequeno, me fazendo a mesma pergunta sobre o que é mesmo isso que respiramos como fragrância de viver... Meus lábios ainda borrifavam vinho, meus olhos queriam os teus olhos! E a mesma voz eclodiu na minha mente, enquanto meus tímpanos eram então estourados outra vez!

As palavras me marcaram como fogo, tatuando no meu corpo o coração em cacos que sempre encobri com poesias de acalanto próximo.
Uma frase para perder a vida
—Não posso!

Uma frase para me fazer sentir embaraçado...
—Não posso!

Aquilo percorria todo o silêncio do meu intimo, olhei no espelho e me senti corcunda na torre mais alta. Sozinho e cheio de histórias tristes pra contar! O tom de feiúra me surgiu em reflexo. E então a idéia de ser maldito refletiu na água que saia da torneira... Aquele capitulo de morrer sozinho e sem amor nenhum... Cercado e sozinho, longe de casa de novo! No meio da multidão levando os cacos de uma vida inteira. A face morna se esquenta, é a lagrima de Pierrot outra vez! Ela escorrega sem querer, e agora embaça os meus olhos de vidro!

“Desculpe se achei que aquilo fosse o inicio de um beijo! Desculpe, por não saber mais ser romântico! E por reconhecer em você amor“

Me despeço, mentalmente enquanto entro no ônibus! Minhas palavras ainda estão reprimidas, me sinto como vapor que cessa enquanto a fogueira recebe água fria... Eu sei! E também desconfio que ela também saiba... Algo meu vai ficar ali enraizada nas paginas do livro... Escondido na contra capa que colei com fita adesiva minusculamente como presente de aniversário, amor para ela, amor para nos dois.
Eu não disse nada! Porque o que é dito nunca se cala e permanece numa espécie de receptáculo, apontando diretamente para o que circula em nosso espírito. Quando alma aparenta estar perdida, simplesmente revive gerando expectativa de uma coisa nova cheia de asfalto e montes verdes.
Aos poucos o motor ronca, e a paisagem vai se soltando na janela, ela acena tchau! Eu apenas pisco em sinal de afeição. Meu coração desmorona por alguma coisa que nem eu sei o que é direito. A sina “ônibus-estrada” se repete... O veiculo cruza a ponte, o rio se ajeita... Talvez seja a última vez que vejo o rastro daquele rio, o vento leva uma poeira acastanhada... Castanho igual olhos dela. Escuto aquela voz dizendo: —Que foi? Que foi?
Não agüento mais pensar na estrada, ela me lembra um passado de quase três anos... Algo que me faz ter certa infelicidade na experiência... Abro mais uma pagina de “on the road”. Queria ser como Jack Kerouac, queria atravessar os estados sem ligar para os meus cacos de apego. Isso me falta, não é amor...
Não é a desilusão de um chute! Não são os olhos castanhos de alguém que me apaixonei sem querer! È a vida na estrada, é conhecer vagabundos... E ter o que escrever, é encher a cara de vinho e acordar no Paraná. Sem saber o meu nome ou como era minha vida antes disso... Esquecer dessa alma inútil de Pierrot, esquecer que meu nariz é grande demais e meu cabelo desajustado demais. Ser igual ao Kerouac é: Parar de sentir repulsa do espelho, ou ficar se sentindo culpado por sempre perder alguém. È passar fome por não ter o que comer, é ver a morte de um rapaz que sonha e o parto de um verdadeiro escritor que chega... Que enlaça o seu povo no cromossomo mais intimo! È ter sede de gente... È ter um motivo para não se sentir um desgraçado por ser simplesmente rejeitado! Eu queria ser como Jack! Queria comer tortas no caminho de Denver, tomar whisky num caminhão em movimento na tentativa de se esquentar... Queria ser um Beat!
Eu vejo meu Strawberry Field da janela, meu lugar favorito em todo mundo! Algo que me faz sentir bem, mesmo que ainda a responsabilidade de ser alguém me deixe vazio... Ali eu sinto que sou muito mais. Que ainda sou! Que ainda vou ser aquilo que posso ser... Aquilo que sou.. Eu! Me sinto bem em estar de volta a cidade dos caquis e dos ipês amarelos. A estrada fica pra trás, estou na cidade. De volta ao lar! O bom filho a casa torna! Ou seja lá o que querem dizer com isso!

Olho para moça que está do meu lado, ela dorme um sono que dá vontade de fotografar! O vento traz de volta as cinzas das quatro. Eu ainda estou com aqueles olhos dentro de mim...(vou dormir pensando naqueles olhos!).
Um sorriso me vem na face quando cruzo a passarela. O barulho do trem passando embaixo dos meus pés é assustador! Meio assustado e meio abatido eu ainda consigo soltar um sorriso! Eu sei que isso vem dela, eu sei que to sentindo saudade e na manhã seguinte vou sentir mais... Eu também sei depois de uma noite isso acaba! Termina virando morfina solta na madrugada.... E daí eu não vou sentir mais nada! Não vou ter mais acesso a sentimento nenhum. E isso me causa medo! Porque no fundo eu sei, que cada vez mais algo me força a parar de sentir!
Uma forma nebulosa de máscara negra, realidade de adaptação que vem como anti-gripal para cessar o pesar, para voltar a seguir a rotina. A forma nebulosa ri alto, nunca diz nada,mas eu compreendo o significado... Sem esse "que" de coração, eu seria mais repleto de frieza... Conquistaria mais, e não andaria pensando em nada. Seria um funcionário público, seria um mercador famoso, um bancário orgulhoso e perderia a essência mãe que fui criado!
Quando essa máscara negra me absorver completamente, quando enfim eu parar de sentir! Quando a atmosfera daqueles olhos castanhos sumir... Quando parar de inventar musas e toda gota de afeto desaparecer! Todo sentimento que prezo vai acabar. E sem esse tipo de sentimento não haverá mais folha ou caneta de tinta azul manchando meus dedos... Não haverá crença em mais nada... O homem nasce o poeta morre!

E todo texto é jogado na fogueira, a essência acumulada, o som de violinos a literatura de penas é manchada... Eu não vou saber o quanto de mim restou. Quantas batidas no peito, quantas cartas dedicadas, quantos poesias escritas... Desperdiçadas, como os sentimentos que se findou...
Nasce o homem, morre o desperdiçador!

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Glossário:
Pierrot: Variação francesa do palhaço triste, apaixonado pela Colombina, que inevitavelmente lhe parte o coração e o deixa pelo Arlequim. Uma de suas características é a lágrima no rosto.
Receptáculo: Lugar onde se reúnem coisas provenientes de diferentes origens.
Jack Kerouac: Autor estadunidense do romance On the Road (pé na estrada) responsáveis por uma das maiores revoluções culturais do secu XX. Percussor da geração Beat.
Strawberry Field: “Strawberry Fields Forever” Na verdade é uma canção dos Beatles Composta por John Lennon e creditada a dupla John Lennon-McCartney. A gravação foi realizada no período de 24 de novembro a 22 de dezembro de 1966. Diz a história que Strawberry Field (Campos de morango) era um lugar onde o exército da salvação fazia quermesses em Liverpool onde John Lennon ia quando criança. Esse é ponto filosófico da música Strawberry Field pode ser tanto um lugar,um objeto e até uma pessoa... Onde recorremos quando estamos mal, onde passamos bons momentos e lá nada importa tudo é perfeito!

sábado, 26 de dezembro de 2009

O Pessimismo Segundo Quem perdeu as asas!


A bomba estoura, não importa quantos panos você encubra... Uma dinamite sempre será uma Dinamite!
È tudo uma questão de química... Nitroglicerina pura! E ai meu irmão! Quando o negocio explode, você vê até as tripas dançarem!
E assim que as tripas dançam, é impossível ter o corpo limpo de novo!
Você pode contar um, você pode contar dois, pode contar até três. Mas nada volta! E o seu corpo ainda continua ensebado de sangue. Então você lava, mas ainda sente aquele cheiro, ainda imagina as células vermelhas cobrindo tudo... Droga! Você imagina... E fica imaginando toda aquele sangue coagulando seu corpo.

Então me diz qual é o seu discurso de otimismo pra isso?

O lance é que você não pode chorar porque sua mulher foi embora! Ou por abrir a tampa da latrina e encontrar um monte de fetos mal desenvolvidos boiando igual merda na privada... São apenas alguns filhos que não deram certo, certo?
Abortos incondicionais de alguma coisa que apodrece no seu braço e não tem como amputar!

È tudo uma questão de gordura! O negócio é sentar a bunda numa poltrona velha e assistir a merda de um filme tosco comendo feito uma vaca..
Quanto mais gordura mais fetos nascem no seu braço. Mas quem liga com um pedaço de carne morta, quando se tem metros e metros de carne nova ampliando em baixo da epiderme! È lógica pura!!!

Então me diz qual é o seu discurso de otimismo pra isso?

Todo dia um pássaro é morto por linhas embedidas em cerol...Todo dia aquelas mesmas asas permanecem quebradas, incapaz de voar! Incapaz de simplesmente voar!

Qual é o seu discurso de otimismo dessa vez?
Qual é o maldito discurso de otimismo que ainda faz com que você minta para os fatos?

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Meus nem tão complexos, sobre o então Natal

Estamos bem perto do natal, pouco menos de uma semana ou quase isso!
Antigamente eu ficava mais eufórico com essa data. Não sei se era por causa dos últimos dias de aula, ou pela espera ansiosa por um presente... Mas eu amava dezembro, amava ler histórias natalinas de renas caindo, ou de uma realidade de pinheiros e neve que eu nunca vi! Meus olhos brilhavam com os fogos da meia noite e como era bom! Como tudo era perfeito na véspera de natal!
Mas então o tempo passa e por algum motivo você entra na maldita idade da razão. E um condenado prova que o papai Noel é apenas um gordo rechonchudo filho duma puta que palita os dentes enquanto faz compras no Wall Mart!
São apenas cacos de um espelho quebrado. Todas aquelas coisas que você só consegue distinguir depois de um tempo, e depois define como complexo.
A escrota realidade do dia a dia!
E assim a ficha cai! Pequenas lembranças antes reprimidas numa espécie de proteção mental, agora escapam como ponto analítico disso que alguns nomeiam: “vida adulta”. Então todos os natais verdadeiros aparecem, em cenas curtas... Me lembro como se ainda estivesse lá. Tudo corria bem e já era meia noite, minha barriga estava cheia. E eu me encontrava deitado na sala assistindo a programação de natal. Quando uma briga de vizinhos invadiu meu mundo, algo que começou na rua e acabou no meio da sala de casa.
O marido cobria a mulher de socos. Enquanto o ciúme queimava sua alma... Da boca da mulher escorria uma saliva misturada ao sangue, que ela tentava encobrir através de um pano de prato com desenhos de flores que segurava contra a boca.
As filhas deles estavam ali, gritavam para que ele não batesse na mãe. E como éramos vizinhos a mulher pediu amparo aos meus pais, invadindo a casa como um fiel implorando clemência ao santuário...
—Por favor!
A mulher implora!
—Grrrr!
O marido rosna a ceia não foi o bastante para ele, ansia cada pedaço da carne dela.
E meus olhos fragmentaram cada minuto daquele caos natalino. A realidade é dura demais para algumas doses de espumante! Aposto que o marido daquela mulher bebeu algumas garrafas de velho barreiro com um pedaço bem suculento de carne de porco e sentiu igual ao animal que digeria! Não me lembro como acabou aquilo, mas não houve sirenes policiais... E pelo que eu sei, os dois estão juntos até hoje. (Acho que para algumas mulheres a força de uma pancada tem o mesmo encanto do que uma poesia sussurrada).
È claro que aquela cena acabou com a ceia de natal que acontecia por milagre dentro de casa. Minha família sempre foi um lar de opostos que se agüentam (ou tentam se agüentar). Portanto não havia ceias com grandes frutas e crianças brincando de pega-pega pelo quintal.
Acontecer uma ceia em casa fazia parte do que os padres chamam de milagre natalino, um milagre que se desmanchava antes da meia noite. E os cacos do espelho novamente eram jogados... Uma tia minha sempre bebia demais e acabava tudo na divina sinceridade humana. È como aquele provérbio antigo diz: In Vino veritas! (No vinho a verdade). E todos nos sabemos como a verdade reage com a hipocrisia!
As ceias acabavam em soluços de choro, ou risos de fuga em meio a caras desconfortadas das minhas outras tias. Contudo ainda éramos crianças não entendíamos a hipocrisia, só queríamos uma ceia de natal que não acabasse em intrigas. Meu natal nunca foi um natal comum, além da ceias desastrosas havia também os princípios dos meus pais sobre a lenda do papai Noel. Eles achavam errado influenciar a crença do bom velhinho.
Na concepção dos meus pais (especialmente da minha mãe) mentir para um criança dizendo que renas e o pólo norte guardam uma fábrica brinquedos é algo injusto. Portanto eles deixavam bem claro que aquele “velho barbudo” não existia. Com Papai Noel ou sem Papai Noel, mesmo assim eu e meu irmão tínhamos direito de escolher um presente de fim de ano.
O acordo era não “repetir de ano” na escola , e ter sempre boas notas, daí ganhávamos o presente desejado.
O engraçado que mesmo com meus pais deixando bem claro que a ficção do Papai Noel era algo bobo, eu (com meus seis anos na época) ainda esperava crente que ia ver um trenó sendo guiado no céu. Acreditei em Papai Noel mesmo sem ninguém ter me deixado acreditar!
Hoje apesar de não concordar, eu entendo o lado dos meus pais... Tiveram uma criação rústica (típica do interior) então achavam boba essa coisa de magia natalina. Meus pais sempre foram céticos em questão aos ritos sociais, ceias, ou ovos de páscoa e fadas do dente. Apesar de serem muito carinhosos nunca influenciaram o lúdico no nosso cotidiano, não faziam com que escrevêssemos cartas pedindo brinquedos, ou certificavam a existência de elfos no quintal.
Parece bobo, mas essas crenças infantis ajudam na formação mental de uma criança. Uma criança que acredita em algo bobo como a existência do Papai Noel, aprende a conquistar coisas impossíveis e cresce limpo de partículas de pessimismo na estrutura de sua personalidade! È obvio que uma criança que cresça sem sonhos lúdicos (sem a crença no velho barbudo), não vai ter fé em si mesma no desejo de coisas impossíveis! E assim não conquistar nada de porra nenhuma!
E esse nada de porra nenhuma, acaba com todo sentido de achar um sentido na vida!
Não vou enumerar o caos social em que vivemos. È fato que a nossa sociedade há tempos não forma princípios para um bom caráter ou ensina algum senso humanitário para convivência, quem dirá para a crença de algo tão bonito como o natal!
Todo mundo sabe, que o natal não se trata só de uma fé pós- cristã imposta pela igreja para gerar mais tarde (lê-se, hoje) os sorrisos de grandes empresários no lucro da venda. O natal é de um significado bem mais vasto, para não dizer mais antigo.
Os celtas já comemoravam o dia 25 bem antes de Jesus vir ao mundo. Na verdade todos os costumes referentes a essa data foram adotados (para não dizer roubados) pela cultura neo-cristã. E naquela época já era comum a união da família, a confraternização, dança e árvores decorada.
Pode-se dizer que esse sincretismo religioso uniu a “bom vinvancia” dos celtas, com o a face caridosa dos que ainda dividem o pão (os verdadeiros cristãos).
Para aqueles que pensam que o natal é apenas feito de algumas cervejas geladas e de muito espumante barato, eu deixo aqui a dica para ouvir uma boa música celta típica desse feriado. (vale até aquela do sapatinho na janela).
Talvez se as pessoas se embriagassem menos, e amassem mais a confraternização entre conhecidos e desconhecidos.... Talvez se ainda houvesse o hábito de contar uma história bonita para que as crianças pudessem sonhar a meia noite... Eu ainda guardaria a esperança de amar o natal como antes!
Pois, não importa o quanto às lembranças sejam fortes e tragam os cacos do espelho de volta. Se ainda houvesse calor humano, e não solidão... O meu natal seria menos solitário e crente desse amor que tanto faz falta nas pessoas!

Boas Festas!

domingo, 13 de dezembro de 2009

Contra indicação


Aqueles olhos expressavam dor. Tingidos de matéria, abriam e fechavam tecendo lágrimas...
E a dor habitou seu peito. No momento todas as portas se fecharam, e todos os demônios brotaram do inferno. Ele fechou os punhos e desacreditou em si mesmo.
E naquele instante, não mais que aquele instante, se esqueceu dos amigos e se deixou levar pela dor.
Os grandes feitos ilustravam sua mente (pequenos em questão de ato, mas grandiosos em virtude) o aborreciam ainda mais... Trazendo uma nítida noção de falha.
Ele recusou a vida, disse para as paredes que queria parar de existir.Foi até a esquina, entrou numa farmácia e perguntou para um atendente:
—Você tem algo para cessar a existência?
—O que?
Questionou o atendente. Naquela farmácia perguntas assim não aconteciam.
—Algo para parar de existir! Uma boa receita capaz de apagar toda essa matéria de carne talvez?
Tentou outra vez o moço, sendo um pouco mais explicativo.
—Desconheço algo assim!
Afirmou o atendente.
—Então o que me recomenda?
—Tempo!
—Por que tempo?
—È o ideal para os sintomas do senhor, já que nenhum ato de abolir a existência dura mais que algumas horas...
—E se durar mais que uma hora, o que eu faço?
—Espere mais uma hora! E depois mais uma hora, até que alguém toque a campainha e te chame para sair. Ou até cair uma garoa que vaze pelas goteiras e molhe seu rosto... E se isso te irritar. Espere alguns instantes com fé que a chuva passe. Para enfim ver o céu limpo!
—Eu não entendo esse remédio!
—Mas não é preciso entender, os remédios são todos assim... Basta ingerir algumas doses e logo você está bom! E no final você nem vai saber ao certo o que ingeriu!
—Tem certeza, que ficarei bem com esse remédio?
—Talvez!
—Talvez? Como assim talvez! Você não me garante melhora?
—Olha! Não existe uma contra indicação, mas como todos os medicamentos esse também têm reações adversas.
—Quais?
—Overdose de vida!
—E isso é lá ruim?
—Existe casos e casos... Um senhor que tomou o remédio semana passada, reclamava de ter uma vida vazia. Depois que utilizar a receita, ele conheceu a eternidade de um dia... E a vida vazia que ele tanto reclamava, virou algo cheio de coisas que ele mesmo não sabia de onde saía. Já para uma mocinha que também utilizou da receita, essa sensação de intensidade do dia valeu tanto que a coitadinha acabou ficando com overdose de tudo!
—Não me diga!
—Digo sim! O tempo pode ser algo assustador visto de um ângulo mais sensorial. Tempo produz vida. E uma vida intensificada em tempo, gera sinestesia aguda! È o que a super dose dessa receita traz... Vai levar?
—Vou tentar, quer dizer... Vou levar!
—Ótimo! Vou embalar para o senhor! Já ia esquecendo, o que levou o senhor a querer cessar a existência mesmo?
—Dor!
—Entendo! Então não seria melhor o senhor ter levado um Doralgina?

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Naipe rasgado



Existe uma vontade que cresce e avassala todo e qualquer sentimento de queda.

Algo que a manhã exala. Cheiro de recomeço!
Um escasso feito de paisagens conhecidas pelo mundo... Morros grandes, monumentos de cimento e grandes vales! Mostram o recomeço!
E então toda decepção acaba. Todos o erros são grafitados com uma escrita simples de uma miragem infantil: Recomeço!

O castelo de cartas desmorona pela brisa calma e confortadora... Entre reis e valetes, a dama de copas é a única que cai virada. A dama de copas incide em evidência enquanto tudo resta em ruínas: Recomeço!
O anti séptico arde posto na ferida aberta... A água tira os cacos que ainda permanecem presos na carne. Curativos aderentes: Recomeço!
Carro morto na contra mão... Buzinas e xingamentos de longa data... Ponto morto, chave enguiçada e o carro anda: recomeço!

O corpo colide com a terra sem pulsação iminente... Todos os segredos se perdem, todos os motivos acabam: RECOMEÇO!
Toda gota de orvalho, toda questão inacabada... Todo fim de tarde que guarda um desejo incompreendido... Desatado, desconexo ou vendido!

Restaure o Recomeço!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Sono!


É sexta feira, imagino que toda sexta feira é igual a quase todas as sextas feiras. Eu não dormi na noite passada, portanto completo agora muitas horas de sono que não tive! A luz do monitor me mantém bem acordado. Não sinto sono, na verdade não quero sentir. Preciso equilibrar meus minutos perdidos, preciso dormir normalmente, pelo menos uma noite... Troco palavras com pessoas no Messenger, alguns olas, tantos outros tudo bem...
Será que tudo está bem mesmo? Depois de algumas horas totalmente desperto eu desencadeio pensamentos sem pensar. Estado alfa! Isso! Me lembro de ter lido isso numa maldita enciclopédia no trem. A mente fica área, formigamentos na mão, estado de criação suprema! Ritmo cerebral baixo e fala incoerente... Os sabichões dizem que entramos em alfa a partir da meditação, droga! Eu não meditei, só estou sem dormir! Tinha que entrar em alfa?
Tudo que eu queria nesse instante era não dizer o que sinto de maneira jogada! Devo ter discutido relações pessoais, casos antigos com ex-namoradas e temas políticos com todos os meus contatos do MSN.
Essas coisas afetam a mente!
Estou estimulado agora. Posso pular vinte cinco vezes e depois trabalhar em ritmo de maratona. Tomo banho em estilo karaokê, viajo toda linha musical dos Smits, fazendo o tom grave do Kurt. Saio do chuveiro ouvindo algo como acabar com toda água do mundo. È tanto exagero que dá vontade até de cai na cama e nunca mais acordar. Não!!!! Não posso dormir, ainda é preciso sobreviver a ao sono!
O maior inimigo de todos os tempos, o malfeitor dos insones. Aquele que faz com que você durma na poltrona do cinema, aquele que te derruba no ônibus lotado e as vezes até faz com que você babe na janela:O sono!
Mr: Sandman para uns, João pestana para outros. O sono é o começo do sonho, a partida para o pesadelo. O recesso da mente. Pode-se dizer numa linha mais poética que não vivemos sem sonhar. Assim como não podemos viver sem dormir. È altamente prejudicial à saúde do nosso corpo. Podemos atingir meses sem comer, mas poucos dias sem dormir!
Ficar três dias sem pregar olho pode gerar seqüelas gigantescas. Tanto é que na ditadura militar uma das piores torturas era deixar uma pessoa sem dormir. Só de pensar nisso me dá sono!
A maioria das pessoas que tem insônia procuram estimulantes para o sono. Leite com abobora, luz azul... È cada estimulante estranho que dá mais vontade de dormir. Sempre achei que o maior estimulante para sono é permanecer acordado! Parece idiota, mas o sono dá sono!
Enquanto escrevo isso eu o vejo anoitecer o dia, minhas pálpebras já recusam ficar olhando as palavras. Quando estava no ônibus tudo que tive vontade fazer era dormir. Deitar-se na cama e logo entrar no mundo de Morpheu. Invadindo o domínio de Hipnos... Até o galo cantar na manhã seguinte.
Dormir e acordar. Sina nossa de cada dia.