quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Crônicas de mim mesmo "Em véspera de Natal"


Pinheiros sintéticos, luzes que piscam. Ânsia de consumismo globalizado, crença em menino santo. Eu sei hoje é véspera de natal.Sei porque meus vizinhos viajaram, meus cachorros já anseiam os rojões da meia noite. E eu aguardo os fogos de minha solidão.

Passo pelas igrejas, faces de anjos traduzem pra mim o que os santos teimavam em dizer: Aleluia cristo nasceu!

Viro a esquina e uma velhinha me implora ajuda, pois não consegue levar os alimentos para ceia de hoje à noite. Um garotinho de rua observa melancolicamente as sacolas de presentes irem e virem nas mãos das pessoas que passam pela avenida. Certas vezes não basta acreditar em papai Noel, penso eu. A realidade é dura demais para que se possa sonhar com brinquedos. Por que será que o natal é tão diferente entre as classes? A mesa farta, os presentes embaixo da arvore. O espumante estourado, o brinde com vinho, mas não falávamos em cristo nesse instante? A idéia não era ajudar ao próximo como a si mesmo? A idéia não era ter sentimentos de amor ao invés de ter um pernil jogado fora na manhã seguinte?

Onde foi parar o espírito natalino?A não ser nas lojas de guirlanda, nos piscas importados da China. Nas estatuetas de São Nicolau, agora vestido com logotipo da coca cola.
Parece que os anos passam e perdemos o senso de partilha. Por que é tão difícil oferecer algo sem ter algo em troca? O natal deveria ser uma data de boas ações, de sentimentos renovados. Eu não sou cristão e muito menos pertenço a classe dos voluntários, entretanto sei que enquanto deixarmos o mundo de lado e vivermos de acordo com nossas necessidades, maremotos irão afundar navios. Crianças irão se tornar homens bombas e o natal perdera esse senso de bom senso ,renegado em compras e bebidas numa eterna meia noite sem sentido.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Paliativo:



do Latim. "palliat".,

Que só tem eficácia momentânea ou incompleta;
que apenas serve para paliar;
s. m.,
medicamento que não cura mas mitiga o sofrimento do doente;

fig.,
delonga que mantém uma expectativa;
dissimulação;
paliação.

Parestesia (Por Gabriele Fidalgo)


Guardei tua carta, enquanto vasculhava a mente em busca de palavras que pudessem justificar todas essas coisas que você me diz com tamanha mágoa. Meus olhos deslizaram pelas linhas tortas das tuas palavras duras, e eu tinha vontade de afogar-me nesta raiva exacerbada com que me espanca. Me batendo com frases diretas, segurando-me pelos cabelos, apertando meus defeitos, e sufocando a lembrança viva do meu pensar confuso.

É verdade, eu enfiei um estilete curto e afiado dentro de você. Vi teu coração bater, e, mesmo assim, insistia em não retirar a venda posta em meus olhos. Meu receio era te ver com os olhos quebrados e com lágrimas inevitáveis escorrendo pelo rosto. Tive tanto medo do sentimento que pulsava em teu peito, que pulei de teus braços para cair num chão frio, áspero, seco. Tanto medo de acabar completamente coberta por teus lábios, que corri o mais rápido que pude, tampando os ouvidos e soando frio. Você me olhava perdido, me observava desencontrado da realidade, engolindo as palavras erradas que eu te disse, quieto.

E eu sei. Sei que eu deveria ter sido devorada pelo fogo com que você aquecia as minhas noites claras. Minhas noites confortavelmente aconchegadas pela tua voz forte e por teu sorriso leve. Noites que abandonei numa estação de ônibus, após descobrir tua passionalidade.Li tua carta esperando que soubesse o que estes verbos significariam em mim. Torcendo para que compreendesse que uma carta de amor mal resolvido, tem poder de revirar todas as canções antigas e deixadas num armário qualquer.

A tua ortografia me faz pensar que a solução é chorar. A lembrança dos teus olhos apertados e colados aos meus, provocam dores impossíveis de serem descritas, mas mesmo assim eu as revelo para você. Aperto-me contra uma folha de papel, e faço confissões que não poderiam ser perdoadas. Arrisco-me ao menos uma vez em tua vida. Ao menos para dizer que é minha culpa, a tua ferida. É tarde demais, você sabe. Eu errei com a fraqueza que você não conhecia. Deixei tudo assim, desarrumado. Deixei no teu corpo meu gosto transformado em podridão. Deixei em teus cadernos a marca da minha ausência.

Deixei no teu café o gelo do meu descaso. Descarada, errante, pequena para os teus sonhos grandes e para as esquinas da tua cidade.É tarde. Peço perdão por ainda precisar decifrar nossa despedida.

Paliativo (Abandono)


Cotovelos estendidos numa mesa, o reflexo das sobras de um suposto jantar. As janelas são feitas de plástico condenado. Condenam em retângulos retos a vida das ruas que meus olhos não enxergam. Minhas costas se cruzam na cadeira, meu pulso está firme e logo bafejo o sono...
“Ela se foi...”

Tomou o barco na noite escura, deixou suas marcas escondidas pela casa, traços em meu coração! Uma musica que ausenta o silêncio, os recortes de jornais passados, rascunhos mal desenhados de uma história sem meio, imposta e composta em meus dias maus somados!

"Ela se foi...”

E não deixou vestígios de volta, recolheu suas tralhas e no fim se esqueceu de desligar a luz...

Minha casa vazia, ausente de claridade.... Estou hojeesperando que alguém me empreste velas, para que enfim possa enxergar meu reflexo outra vez!

Hoje, desencantado hoje! desfalecido agora!
Gostaria de dizer sinto muito, pelo menos iria sentir algo além dessa incoerente inconstância.
“Ela se foi...”
E não posso dizer o quanto sua imaginável presença me trazia conforto!

Não limpei minha alma desde então.
O tapete permanece bem ali, ao lado da mesa com as manchas de vinho adormecidas de um natal caloroso. Os retratos ainda estão no quarto a beira da cama. Trazendo-me a lembrança que tive sonhos uma vez realizados. Que vivi uma vida fora dos relâmpagos que acostumei observar. As cartas amontoam na varanda, esperando alguma resposta. Mas de respostas eu não entendo nada!

Sempre me disseram que a crueldade está nos sonhos, hoje eu consigo percebe-la no vazio dos corredores. Sonhos vulgarizam nossa realidade, provando que momentos que tivemos, momentos especiais e raros, jamais serão os mesmos. E que depois disso nada mais terá o mesmo valor.

Meu café da manhã agora é sem companhia, e o jardim o qual observei foi tomado por ervas daninhas. Agora! Sem mais flores... Sem mais brilho... Sem mais em ti!
Meu chá ficou amargo, minha manhã fria, meu lugar inerte . Sento-me só todos dias na varanda para que enfim possa ouvir outras vozes a não ser as minhas.

Sim! "Ela se foi..." E sequer mediu os preceitos, sequer pediu minha opinião.... Ou disse adeus. Ela apenas foi embora me esquecendo aqui!

domingo, 30 de novembro de 2008

Crônicas De Mim Mesmo "Num Dia Como Outro Qualquer"


Movo meu corpo puxo o edredom, nesse exato momento estou dormindo. Acho que estou num sono pesado... aqueles cuja expressão popular é: “mais apagado que defunto”. Viajo entre as sete esferas, quando escuto o celular tocando. Reviro algumas vezes na cama pensando que a vida de largado não é tão ruim assim. Lembro que meus olhos pregaram às oito da manhã, depois de uma madrugada colada na difícil tarefa de finalizar a mensagem num manuscrito. "Droga!!!
"Penso comigo, quando o barulho finalmente me desperta.
"Não se pode tirar um dia de largado sem que o mundo saiba de sua existência?" Caminho procurando incessantemente pelo maldito celular crendo que duendes realmente existem, porém não são tão afáveis como as lendas retratam.. Na minha opinião duendes são gatunos de mão cheia. Nada místicos, pelo contrário, são aliados ao governo no setor de saque a pessoas lesadas. Pegam celulares, agendas, livros e até objetos maiores como note books, com uma única finalidade: leiloar todos esses objetos perdidos no mercado mitológico chinês! Acredite, existem mais duendes do que sua vã filosofia pressupõe!!!
Depois de alguns segundos vasculhando da cama até o chão, tentando definir onde diabos "guardei" o maldito celular... Avisto uma luz vinda do guarda roupa! Não há outra explicação, parece que o duende se esqueceu de levar o celular. Desviando das folhas, roupas, livros e tudo mais que cobre o chão do meu quarto, puxo a gaveta do guarda roupa... Um espanto! E me pergunto o que o celular faz na gaveta de meias?
–Alo!—Digo, atendendo a chamada. Tentando esconder a vontade falar:
Mas que porra! Será que não posso fingir que sou um vagabundo por um dia. 
Alguns segundos de silêncio se passam, será que a máfia russa descobriu minha identidade secreta? Se for isso estarei eliminado antes do almoço...
—Vai ter jogo hoje? — pergunta a voz. Que agora me parece mais familiar, e para o meu alivio sem nenhum sotaque russo!
“Ufa!” reflito aliviado comigo, meu codinome “Clebervasks” está seguro!
—Caralho! Cleber? Você Dormiu de novo?
A expressão me levou a identidade do individuo.
—Biro! Então é você— Biro que na verdade é André! È o desgraçado que sempre me acordou com toques polifônicos depois das onze.
—Quem você pensou que era? Seu babaca!
—A máfia Russa!
—È! Você ainda está dormindo... Queria saber se vai rolar jogo hoje?
Rolar jogo seria na linguagem “Biriana” (também conhecida como dialeto dos Ogros) se haveria naquele momento um jogo de RPG ou “jogo de interpretação de Personagens”(Vide Wikipédia jogos de RPG). Muito comum entre, loucos,nerds e pré historiadores.
—Não! Tenho que terminar uns negócios aqui em casa.
Respondo, querendo saber por que as pessoas se viciam em meios de lazer tão comuns? RPG é um lazer como outro qualquer. Òtimo para o desenvolvimento intelectual, mas com o péssimo valor de fugir da realidade por alguns minutos! È uma pena que alguns jogadores se deixem levar tanto por um jogo...
—Beleza!
Finalizou ele com a voz meio abatida. Diariamente eu tinha que agüentar o vicio de alguns amigos pelo RPG. Às vezes (na maioria delas) eu nem estava com vontade de jogar e mesmo assim o fazia. Sabendo que é necessário para alguns essa fuga do meio. Porém minhas responsabilidades seguiam para finalizar aquela carta. Afinal eu havia prometido a ela!
Havia prometido que responderia a carta, mas fui deixando até ao último badalar, empurrando com a barriga até o ultimo dia da semana.
Naquele momento liguei o som num volume com que pudesse fazer as janelas tremerem.
Som para poder gritar, berrar com o refrão mais forte. Concordando com a estrofe que dizia algo como: Gritar até o ponto que a vizinhança ouvisse tua voz.
È ,eu gritei, mas quando olhei para porta, bem! Não era a vizinhança... Pelo contrário, eram olhos aterrorizantes numa mistura de castanho claro emoldurados em lentes de vidro embaçadas. Acredite, os piratas antigos temeriam ao olhar dentro daqueles olhos esmorecidos!
Temendo o olhar percebi que não cantava mais, o som desaparecera! Até que a dona dos olhos de vidro disse calmamente como se o som não existisse:
— Você por acaso é surdo? Pra que um som nessa altura?
A típica fala de minha mãe, cheia de interrogações! È ela a dona dos olhos de vidro. A única que chegava de surpresa inesperada, cheia expressões peculiares. O único modo de chamar minha atenção, talvez.
— Sério! Pensei que estávamos numa festa, dai pensei em agitar o esqueleto o que você acha?
Respondi dançando no modo desajeitado que somente duas coisas eram capazes de induzir: café, amor e euforia! Eu sabia que mesmo sendo uma dança forçada abriria um riso naquela face materna. E foi o que aconteceu, depois de alguns minutos pensando como fora "criar um filho tão insano" ela riu e seguiu em direção ao corredor sem dizer mais nada. Depois disso abaixei o som (ou pensei ter abaixado) peguei as folhas que estavam em baixo de alguns cadernos no chão e fechei a porta. Meus olhos passaram de relance pelos titulos dos livros, mas somente um me fitou a carne. Dizia com um cupido desenhado na capa: “O amor nos tempos do cólera”.
Fantasmas entraram pela janela naquele momento. Pensei nas palavras antigas do passado enquanto “Iris” saia das caixas de som e me visitava na cama. Olhei para o teto enquanto sentia aquelas frases acariciando minha face. De alguma forma minhas palavras saiam pra dentro, sem fala alguma... “Iris” dialogando com meu coração! Dizendo: "Pegue está frase... Pegue essa canção. Pois neste momento ela é sua, mais do que jamais foi "
As frases oscilavam: “Tudo que eu sinto é este momento, tudo que eu respiro é a sua vida”.
Eu rodopiava em cenas angustiantes enquanto as falas traduziam o que meus olhos negavam em transparecer. Íris que me cegava aos poucos! Acabando pouco a pouco com os meus sonhos... Os quais achei que era real.
— Cleber?
Alguém me chamava na porta...
Voltei para realidade do quarto bagunçado. O nanquim ainda estava ali intacto, o vento balançava o pingente da janela. Tive a impressão que os fantasma haviam ido embora. Afinal algo sempre levava meus fantasmas, no entanto uma hora ou outra eles estavam de volta!
Abri a porta me deparando com meu pai... Avisou ele num tom grave parecido com meu:
— O Gil ta ai.
— Tudo bem? Fala pra ele que eu já vou.
Respondi. E compreendendo a mensagem ele seguiu em silêncio.
Meu pai, parte Tupã e outra John Waine... Cara fechada, modo silencioso de andar e fala interrupta. Sim! Meu pai era mistura tipíca de cowboy de western com a fisionomia de Indio Brasileiro! Portador do coração mais terno que já distingui numa pessoa. Entretanto quem o conhecesse a primeira vista teria outra impressão... A impressão que ele esmigalharia seu fígado e comeria no almoço. Era o que a face dele dizia num primeiro contato! Pois assim que meu pai abrisse a boca ou sorrisse seu coração falaria mais forte. Talvez fosse por este motivo de alma afável que as crianças o cercavam frenquentemente. Mesmo com estilo de justiceiro solitário que tentava aparentar, as crianças o encaravam como um personagem lúdico de algum mundo distante. Enxergavam a alma doce que ele tanto tentava esconder, sempre sorrindo...
—Meu pai—Disse olhando o meu reflexo no espelho— Simplesmente essas sobrancelhas gigantes pertencem a ele. Isso deve ser o que dizem sobre ter uma herança genética!
Deixei o espelho de lado e segui em direção ao corredor, fui até a cozinha onde avistei minha mãe na área de serviços, calçando suas famosas botas de borracha azul.
— Seus porcos! Como podem fazer tanta sujeira? Isso não é coisa de cachorro!
Dizia ela para os cães. Aquele dialogo e aquelas botas azuis, só poderiam significar uma coisa... Minha mãe estava tendo o seu famoso ataque de limpeza desenfreada! Ela começava pelo banheiro com baldes de água e terminava com um jato potencializado de super ducha nas janelas dos quartos. Acordando quem dormia e dizendo: To limpando!
Na verdade, tenho absoluta certeza que essa manifestação de limpeza vinha de alguma entidade sobrenatural que habitava os recipientes de produtos higiênicos. Aquelas embalagens faziam sons guturais sem que ninguém as apertasse. Algo do mal morava nos litros de desifetante e nas embalagens de limpa-vidro. E era só a minha mãe tocar em algum desses produtos de limpeza que logo calçava as botas, vestia seu avental e prendia o cabelo para trás. Aquele era o seu fardo para guerra, e os cães os inimigos da batalha, pois mijavam e cagavam desafiando a ira do soldado de botas azuis!
Deixei de lado disputa pelo quintal, enchi minha caneca branca de café e segui caminho até a sala. Passei entre os sofás e desci as escadas para chegar até à locadora. Lá me deparei com Gil vulgo Gilson (também conhecido como boneco de Olinda ambulante). Naquele momento eu questionava porque maldições uma vez não podia ser uma garota que viesse até mim.
Uma garota de olhos azuis com lábios vermelhos e cabelos castanhos claros. Com um interesse por literatura cujo um dos princípios de vida fosse compartilhar momentos de amor ao meu lado. Me confortando nos dias escuro, suportando-me nos dias de chuva e discutindo o que fosse necessário para que pudesse entender as razões do que é mesmo isso que dizem ser amor. E claro me dando espaço para oferecer o mesmo em troca.
— Fala Cleber!
Cortou Gil do outro lado do balcão quando eu ainda procurava entre as prateleiras de DVDs o semblante da garota de cabelos castanhos, como se ela realmente existisse... Mas no fim só enxerguei capas de filmes antigos!
— Fala Gil!
Respondi num voz meio abatida, voltando outra vez para realidade daquele dia.
— Ou! Ta fazendo o que? O som tá mo alto...
Perguntou Gil. Quando eu me questionava mentalmente se tinha ou não abaixado o volume do som... Talvez tenha aumentado de novo, vai saber!
— To terminando uma carta... Entra ai!
— E como tá saindo a carta?
— Tá meio foda, porque to tentando escrever com pena e nanquim. Mas, sei lá! Não levo muito jeito com pena. Quer ver a carta?
— Tá! eu trouxe uns jogos de PC se liga—Disse ele mostrando os jogos por cima do balcão— se quiser eu instalo pra você.
— Beleza! Faz assim então... Eu acabo a carta e você fica instalando os jogos no PC da sala, daí quando eu terminar te mostro como ficou os traços. Chega ai?
Convidei Gil para entrar novamente. Deixei ele no computador e voltei para o quarto.
As luzes permaneciam apagadas, sendo a aresta de sol que vinha da janela a iluminação necessária para causar um animo de:
“uall vamos acabar logo com isso Sir Cleber de Vazqtow".
Mãos a obra, pena em mãos e logo as letras sairam cuidadosas. Um borro ali, uma mancha que logo foi transformada em desenho. Parece que minha veia artística vem do escuro. Idéias desaparecem e o relógio anuncia que já são.... o que? Quatro horas!!!
Entorno traços rápidos, girando desastrosamente a folha. Coloco enigmas abstratos e assino meu nome... Enfim a carta está terminada! Meu sangue de escritor fica orgulhoso (mesmo sabendo que o correio fecha as cinco e minha casa fica vinte minutos afastados do centro). Apresso minhas pernas e vou até sala gritando como se uma bomba relógio fosse estourar naquele momento.
— Gill!!!!!!
O garoto quase caiu da cadeira com a estridência do grito, acho que ele também sentiu a presença do disparar assassino do relógio...
— Que foi meu! Tá louco?
— Cara! São quatro horas... O correio fecha as cinco e eu preciso entregar essa carta!!! È uma questão de honra...
— Deixa pra amanhã!
— Amanhã é sábado, acho que os correios não abrem sábado!
— Segunda?
— Você não ouviu sobre a questão de honra? Eu passei uma semana enrolando, é hoje ou nunca!
— Tá! Então vamos.
— Vamos—Disse andando sozinho em direção a porta—Que foi Gil? Se não vai cassete!
— Vou! Mas você vai assim...? Sem camisa e com uma bermuda rasgada?
Foi quando reparei que eu estava parecendo um caiçara... Só faltava o chapéu de palha.
A pior coisa, era que havia me esquecido de colocar a carta no envelope junto com as outras surpresas que tinha preparado para enviar junto.
Me fitei no espelho... Enxerguei uma postura desajeitada que fazia dos passos tortos e daquela face risonha meu nome. Em menos de dez minutos estava com minha camisa preta favorita, meu cristal preso ao pescoço e a carta prestes a ser entregue. Só faltava aquele detalhe mínimo de chegar no correio em menos de trinta minutos!
Saímos de casa, Gil e eu com a missão destrambelhada de chegar ao correio a tempo.
— Espera!
Agucei.
— O que foi agora?
Perguntou o que seria a versão alta de Sancho Pancha, Gilson.
— Esqueci minha carteira, dá um tempo ai...
Respondi enquanto corria de volta ao castelo, quer dizer, até minha casa!
Na verdade eu não havia esquecido a carteira, mas havia esquecido a cabeça certamente. Ao abotoar a camisa quando ia descendo a rua, percebi que os botões da mesma camisa estavam para dentro sendo que a camisa em si estava do lado errado . Daí tive a brilhante idéia de correr para casa e vestir a camisa do lado certo . Até porque não queria ouvir sarros dizendo:
“nossa cara, como você é lesado” .
Depois de arrumar a camisa (dentro de casa, longe de olhos humanos a não ser os meus). Voltei a tempo para notar que os ponteiros não haviam parado. Coisa que aprendi muito rápido desde pequeno: O tempo decola!.
Em menos de cinco segundos estava de volta à rua, agora com a camisa do lado certo. Botões da camisa fechados e os pés no asfalto, meu corpo transpirava com o co2 liberado pelas carretas.
— Cara, não vamos chegar a tempo!!!!!!!!!!!!
Essa era umas das diversas frases pessimistas que Gil proferia enquanto desviávamos das pessoas apressadas na calçada. Para piorar quando eu olhava para as nuvens tinha certeza que ali continha sinais de chuva. Foi ai que entendi o pessimismo do meu amigo, mal haviamos saído de casa e os sinais da lei de Murphy aconteciam! Eu Havia tropeçado em três quinas e no ultimo semáforo, um carro quase acabou com os meus sonhos de chegar a vinte um. Portanto enxergar as portas do correio fechadas era uma hipótese bem apropriada para o pessimismo do dia!
— Acho que só vamos saber quando chegarmos né!
Afirmei encerrando o assunto sobre o pessimismo, e do pouco tempo que nos restava.
Depois de algum tempo estávamos em Brás Cubas. Em menos de duas ruas, ao lado do fórum municipal residia o correio. Meu objetivo estava quase sendo concluído. Quando com os dedos pigmentados de nanquim e um sorriso no rosto, avistei a maior fila que já vi para entrar num correio!!! Espantado as únicas palavras que saíram da minha boca foram:
— Caraca! Mas que merda é essa?
Não que aquilo fosse literalmente uma merda, na verdade eram varias pessoas formando o que as tias da pré-escola definiam como trenzinho da alegria. Filas para mim formavam um sentimento de porre globalizado.
— Será que ninguém conhece a praticidade de um e-mail por aqui?
Remungou Gil assim que pregou os olhos na fila.
Parado algum tempo na fila, notei que poucas pessoas estavam com cartas na mão. Um senhor segurava um caixa do tamanho de um televisor, já uma moça tentava organizar as contas do fim do mês. E quanto eu, simplesmente tentava colar o envelope com uma liquido que parecia um musgo branco.
Cartas sociais.... Bem elas eram um padrão pra mim! Gostava de escrever cartas, mesmo não tendo uma letra muito qualificada para isso.
Cartas faziam parte do ser romanesco que permanecia em meu âmago.
Palavras doces para uma vida que se mantinha cítrica.
Palavras que circulavam em sentimentos, tornando meu mundo movimentado.
— São cinco reais senhor?
— O que????
Absurdo! Pensei quando chegou minha vez de quitar para enviar palavras e outras surpresas para uma Anna que se tornou Ziza.
— Está aqui..
— Obrigado! O correio agradece.
Foram as últimas palavras que ouvi da atendente dos correios, foi exato pra mim. Provando que meus objetivos haviam acabado. Demonstrando que o dia chegara ao seu fim e nada me restou, além de falar de jogos e voltar para casa. Ainda tive tempo de me despedir dos amigos e respirar por ter vivido um dia que comparado a tantos outros foi de uma dimensão comum, mas com grandes ações.
Mais um dia na minha vida, mais um X no calendário.... Outro dia como tantos outros que ainda virão, ainda solicitando a esperança que serão cheios dessa mesma satisfação que tive num dia como outro qualquer!

domingo, 16 de novembro de 2008

Enquanto o rosto chove (Entre lamúrias e versos)


Por que lágrimas dissecam no meu rosto?
Sempre que sinto medo ou sou atingido por um raio, cercam-me dessa chuva individual.

Lágrimas que vertem como soro, fervilham-me a face à procura de proteção.

Explicação?

Um cisco acirrado, escolhas erradas... Dedos esmigalhados no asfalto, sentido antro de fracasso consigo mesmo. Decepcionante lado de estar decepcionado.

Lágrimas vertem no meu rosto será, paixão? Lágrimas passam por minha garganta e enganam meu sermão...

“Minha heroína acabou meu cigarro apagou... Meu vicio se absteve. “

Lágrimas que borram meu desespero.

“Nó no pescoço, mergulho do banco...”

Lagrimas que marcam o meu corpo...

Será isso um choro? Sim! Pode ser um pranto daqueles de porta de hospital, óbito na ficha. Velório em dia santo, resposta inesperada depois da amputação.
Sim! É um choro de criança desmamada, de velho viúvo....

De rapaz amargurado depois de ver a nota baixa no gabarito.

Choro de vida interrompida, de vida sem saída. Choro de vida sem sentido.

Lágrimas velejam pelo meu rosto, oceano fundo... Profundo demais para mim.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

"Analogia do amor e as amoras"




O modo acirrado que o som toma forma na sala. Invadindo todos os cômodos preenchendo essa rotina débil das tentativas dos escritos. Som que na verdade é música, dessas baixadas em outros dias, mas que nesse em especial se adapta perfeitamente com a pena que desliza no papel em branco. Meus dedos sangram nanquim, uma sangria desvairada que penetra linhas retas, curvas tortas e palavras mencionadas sorrateiramente também preenchidas pelo o mesmo som. Desenhos que retratam um modelo meio que imparcial de mim. Como é difícil escrever cartas quando o motivo principal não é amor.

Antes versos fáceis compostos sem mediação, desenvolvidos no calor da alma. Desencadeados por intensidade real. Falar de amor hoje é como falar de amoras, por mais doces que sejam não duram mais que uma estação. Amoras? Certas vezes são doces quando estão maduras, outras azedas quando não estão na hora. As maiores sempre ficam em cima, fixas no galho mais alto. Inalcançadas para uns, bem perto para aqueles que dispõem escadas. Não importa, amoras essas que são tão iguais: Doces e pequenas, grandes e saborosas. Sempre partem deixando o gosto da primavera, deixando a língua pigmentada. Manchando os lábios e as mãos numa cor vermelha , ou num roxo impermeável.



Incessante gosto das amoras... Incessante gosto do amor.

Para mim o amor e uma amora são conjuntos. Presos na mesma estação, dividindo o mesmo paradoxo do sabor amargo, doce ou azedo. Quem precisa de amor? Quem precisa de amoras? Se não as frases contidas naquela carta abandonada em cima da mesa. Pobres versos adoeceram na busca de uma musa. Intocados pelo som, os únicos que permanecem ali em silêncio... Numa última linha sem destinatário.


Constando que não há amor sem amoras ou uma amora sem amor.

domingo, 2 de novembro de 2008

As rosas que lá deixei


—A carruagem ainda corre —Dizia ela—vamos ainda é tempo para refletir tudo o que passamos...
Meu coração para sempre restará em você.
Se eu pudesse gravar aquelas palavras antes de ter proclamado adeus, se pudesse encontrar alguma forma de parar estes espíritos que dançam a sós no escuro. O brilho das estrelas junto aos teus olhos, meu canto hoje surge em mi bemol. Você falava sobre a eternidade, eu aceitava o inacabável sem prova de partida. Sem prova de que nada pudesse acontecer ao teu corpo... Fizemos juras perto daquele carvalho, lembro de sentir o teu perfume misturado aquele sol manso de outono. Se ao menos eu soubesse....
Jamais te entregaria ao dia, jamais te deixaria partir. Se ao menos eu soubesse de seu encontro com o destino.
Os filósofos debatem sobre a eternidade, os piratas arrebatam os tesouros.
E eu o que faço além de esperar o brilho eteno dessa alvorada sem volta? Minhas últimas palavras foram de alerta, sequer eu pude dizer que te amava. Minha ultima imagem foi o desvio de tua face e logo aqueles lindos cabelos longos que tentavam lançar as tuas deixas de adeus.
Não posso poupar palavras quando vi o teu corpo desfalecido arranhando minha alma que agora jazia em perdição. Meu coração batia partido em compassos que estampavam o que menos quisera sentir. Meu acalanto vinha de outras pessoas iguais a mim, pessoas que viam você como laço de vida. Não queria ver as tuas mãos paradas sem aquela cor rubra que me tocava esperança. Nosso o último beijo fora aquele que deixei em sua testa, beijo gelado com cheiro de flores ressecadas.
Jamais perdoei os anjos por te enterrarem aos meus pés, jamais os perdoei por terem cantado aquele réquiem de conformidade. Naquele dia meus olhos despertaram lágrimas, minha garganta pronunciou súplicas de volta... Mas nada trouxe sua alma até mim.. Você tinha quinze e eu dezesseis, o que poderia acontecer se eu parasse os teus passos naquela avenida e dissesse:
"Não atravesse essa é a ponte, não se deixe morrer.... Não se deixe morrer."
Se ao menos eu soubesse, o que teria acontecido? Se não uma face menos mórbida do que me acostumei a ter. Parte do que era meu se foi naquele dia... Parte minha que morreu nos teus braços. Parte de mim ainda são aquelas rosas que lá deixei... As primeiras que te dei, as últimas que lá deixei.

Retrospectiva De Um Outubro Sem Sol


Outubro se foi, halloween vazio. Sem caça aos fantasmas, sem cara de sangue dessa vez. Pra falar a verdade não senti o halloween desse ano. Acho que faz parte de mais uma mudança, essa não tem café ou doces ao meio dia, que seja também sem ousadia.

Queria postar essa retrospectiva no final do ano, mas aqui vai:

Eu acordei numa terça de janeiro, com a minha cicatriz escassa sangrando como em cinco anos atrás. Disse para mim mesmo que jamais teria cacos jogados no pescoço outra vez, bom não foi bem assim. Tive que ver os mesmos olhos de um inverno onde não houve verão. Outra vez fui resumido a migalhas e agora por conseqüência minha. O primeiro emprego se foi junto ao stress de Natal, não havia mais caixas, e o cheiro das sacolas que impregnavam nos dedos também haviam desaparecido. Meu nome não era mais pronunciado com uma sigla numérica, e assim vi metade de mim ser deixado outra vez numa data. Sobrevivi até Fevereiro, encontrei como refugio outras canções e as aulas de tcc. Meu coração ainda em cacos se mantinha, não vi preocupação ou zelo nesse tempo. Minhas poesias fúnebres davam origem á uma narrativa estranha, enquanto meu estomago embaralhava minhas vísceras tentava acha um motivo por tamanho desencadeamento. Fato que agora tinha endereço e horas de quilometragens. Eu fingia que ouvia e as pessoas diziam me escutar. No final éramos surdos e mudos numa festa sem bebidas. Os dias passaram rápido, os prédios colidiram, a bolsa ficou arruinada e eu estava empregado de novo, olhava para janela e a madrugada ainda me acompanhava. Tive que guardar tantas palavras dentro de mim pois tinha medo em transferir a culpa do que estava sentindo, guardei tudo numa valsa silenciosa. E assim fui chamado de introspectivo, tinha segundo nos olhos e face ao vento... Fui despedido por parecer estranho, mandado embora por não ser cinza quando queriam amarelo.

Foi então que meus dias de quinze anos voltaram os mesmos gestos às mesmas tribos. Eu paguei meu karma no silêncio, paguei nas madrugadas sem rumo. Paguei por simplesmente ter acreditado um pouco mais em mim. Fui perdendo meus carneiros nos pastos, tendo mais chuva nos olhos do que na janela. Despertando solos de violinos tristes. Tentando modificar essa personalidade, virei a pagina, mas a história estava por todo canto. Virei personagem de mim mesmo, recordando por não saber simplesmente recomeçar. Saturando-me os pequenos fragmentos, com esperança de ter esse silêncio fecundado de som. Chega disso tudo, basta dessa procura. Quero meu halloween de volta, quero meu sorriso de volta. Estou cansado de todo esse desmoronamento, dessas faces encobertas. Esse mundo do avesso não é pra mim não,essa terra sem nome. Onde ninguém se preocupa sem ao menos perguntar o que é preocupação além si próprio. Acho que de Rodrigo S.M, virei Macabea dessas que gostam de coca cola. Macabea fantasiada no halloween.

Agora chega de ser piegas, afinal ainda tenho aquela sinfonia, por certo que amarga e doce. Mas ainda sim é minha sinfonia.

domingo, 26 de outubro de 2008

Sobre casas e velhos. (Curas e venenos)


Todos dias que cruzo o centro da cidade vejo aquela velha casa. O céu pode estar claro, ou o dia pode estar chuvoso, sempre encontro um modo de cruzar meu caminho com a estranha moradia. Ela está em todos os jornais, destaque por sua arquitetura requintada com portões ingleses e janelas bem adequadas do sul da frança. È um monumento do passado assim como o seu dono. Um senhor de cabelos grisalhos que recostava sobe o jardim todas as quintas feiras tirando novas ervas daninhas que teimavam em obscurecer a vista de suas roseiras.
Quando pequeno eu acreditava nas fábulas vindas das conversas cruzadas. Diziam sobre vampiros e um homem que velava o corpo da falecida esposa. Lendas urbanas criadas pela imaginação das crianças mogianas. Mesmo que as histórias sobre o velho fossem absurdas eram culpadas por me tirarem o sono de noite. Isso durou até os dez anos, depois aos treze eu mesmo criava lendas para tirar o sono dos outros. Quando me tornei mais velho, tive meu primeiro contato com o senhor dos pesadelos antigos. As roseiras estavam mais desgastadas, e a grama morria por falta de cuidado. O velhinho estava doente seus anos já pesavam acima de cinqüenta. Quando cruzei a calçada e percebi de súbito que o velho estava fora da casa soube que não deveria perder aquela oportunidade. Cheguei em frente ao portão e logo cumprimentei o velho:
—Bom dia senhor!
O velho nada demonstrava e continuou irrigando as roseiras. Mesmo afoitado eu tentei de novo:
—Com licença Senhor, eu sou da área de turismo aqui da cidade. Gostaria de tirar um foto da casa. E se pudesse me contar um pouco da historia eu ficaria imensamente...
—Nada de fotos
Gritou o velho, quando eu sequer havia acabado a pergunta.
—È eu que gostaria de mostrar essa casa para...
—Eu disse nada de fotos!
Cortou pela ultima vez o velho.
Depois da ultima resposta em tom grosseiro, eu já havia perdido todo interesse sobre a casa. Sobre as histórias da infância, mas a partir dali me perguntei o que acontecia com aquele senhor... Por que ele tinha tanta amargura de vida? Sempre quis saber o que deixam as pessoas amarguradas? Se está causa pode ser devido aos relacionamentos de vida que não deram certo, pois dizem que um coração despedaçado é incurável. Ou pela forma que somos criados, uma mãe desatenta, ou um pai agressivo. Existem complexos que transformam personalidades únicas em pedaços de fúria induzida. Às vezes é o fato de um coração bom se chocar com a hipocrisia do mundo. Existe tantas formas de se manchar a alma alheia, que não posso culpar aquele velho por ter sido tão rude. Não posso culpar, pois acontece comigo também. Há períodos que o veneno da vida é tão grande que disparamos em quem chegar perto, mas no fundo isso não passa de um instinto de proteção.
Casca de impacto, amortecendo o dano penoso. O problema é quando este mal absorve tudo o que a pessoa possui. Daí vem à solidão, o que é cheio fica mais cheio ainda. Cheio de ausência cercada por você mesmo . Sinceramente, acho que isso é automático, ou você nasce escorpião ou é afetado por seu veneno. A diferença está em que procura o contraveneno. Penso que esse antídoto é como o ciclo social, assim como existem pessoas capazes de causar o envenenamento (alguns involuntariamente e outros nem tanto). Assim também existem aquelas que podem cessar processo ou até curar definitivamente.
Pois todos somos adeptos dessa ulcera, mas temos aspirinas no bolso da camisa. Basta saber dosar.

domingo, 19 de outubro de 2008

Relato inconstante numa noite de adeus. (ou "O que é isso mesmo?")

Eu não sei por que, mas certas vezes vejo uma espécie de lodo social. Às vezes não sei por que, aparece do nada, cheiro mal que enfoca a madrugada. Milhares de fatores, gangrenas que apodrecem. Sempre estão ali por todo lado, não há por onde passar. Não há por onde se esconder, as gangrenas exalam a podridão. Chagas social, vizinhos intrometidos, Lagoas imundas com milhares de abortos naturais. Pense! Escolha! Essa podridão dispõe de outras escolhas ao invés de uma só. Abusos de sistema, abuso autoritário são tantas definições que às vezes dá pena de acordar no dia seguinte. Sabendo que tudo é esse lamaçal, toda essa escuridão em vida humana. Saber que essa podridão está em mim, em ti, em vos. Somos latrinas transbordando lixo, somos veneno concentrado em flechas. Apontadas para os corações mais simples, poluindo almas. Descobrindo que humanidade ainda é vírus.
Ah! como eu quisera um dia ser pássaro, como quisera mudar as luzes do pisca da minha arvóre. Tantos anos já medidos em meses. Amigos que passam, outros apenas se matam dentro da gente. Tantos talentos inutilizados e ainda essa incompreensão é latente. Um abraço é tido como o disparar de uma arma, existem pessoas que não ficam satisfeitas em assumir uma vida. Querem mais, o desejo embolorado de mandar nas outras.
Eu morro naquela esquina todos os dias desde que vi você. Sim! eu me deito para os corvos manipulando minha humanidade. Eu mergulho naquele lodo todos os dias desde que te esqueci, sou este poço de desespero. O modo ruim de olhar para o rio sujo, para a criança faminta. Eu encaro isso de perto, são partes das minhas escolhas de vida. Sentar na varanda e enxergar até que ponto a bala vai atingir o alvo. Sim! isso é uma palavra de adeus, talvez um tchau para mais tarde ser um até logo. Mas ainda vou passar despercebido naquela esquina, pensando que acredito em dimensões diferentes. Porque este é o único ponto aceitável dessa realidade irreal.

Eles desligam os aparelhos, mudam sua rotina e retiram você de mim. Poderia contar quantos desenganos eu tive? Poderia medir quanto minhas canções repetem no rádio? Por deus é necessário dizer adeus, mas não éramos amigos? Não me venha desejar feliz aniversário, dizer palavras tolas para acreditar que tudo que fiz foi dar conselhos de graça, companhia desnecessária. Acho que esse tal inferno astral é irreversível, tão pouco acordei e já quero cortar meus pulsos. E nem sei, já chegamos as onze? Queria que alguém ai respirasse. Respiras?

Eu vou te ligar amanhã tudo bem? Perguntar por que sempre me rendem nessa cruz. È necessário estes pregos? É necessário pedir para partir?

Não vá me levar a mal, é que às vezes eu não sei por quê... Simplesmente queria perder essa compreensão que tenho de tudo que é você. Afinal não é sempre que pedimos sutilmente para “se apagar”.
Não vá me lavar a mal, é o que eu acho. Somente o que acho, mas não tenho certeza!

sábado, 18 de outubro de 2008

Destituído


Sou órfão abandonado na sarjeta, de sapatos esburacados.

Deixado de lado, coração quente.
Olhando pra todas aquelas janelas da cidade.
Sabendo que não tenho ninguém para voltar à noite.

Sou um largado de coração mole, aos prantos nos cantos estirado à saudade.
Saudade de mãe fugida, de pai ausente.

Saudade de criança abandonada no meio da rua...
De Minha amargura, sem brinquedo nem lua.

Sou criança medrosa, xixi na cama. Medo do escuro nulo sem paz em mim.

Sou infância sem roda, sem ceia nem moda, que anseia por colo de vó.
Meio semente sem solo, feijão que cresce no algodão.
Tô deitado no chão, nem mesa com pão.

Órfão assim da imensidão.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Morfina



No coma induzido, ele dorme imaginando um mundo cheio de esperanças...

Grita o nome da felicidade, o soldado está de volta a casa novamente. Um bolo de carne é servido a mesa, cheiro do molho vermelho com pedaços de pimentão. O ar fraternal parecia distante naquele campo de fuzilamento. Certas vezes o soldado ainda ouve os tiros, mas tudo não passa de uma lembrança distante, presa num outro canto do mundo. As borboletas que pousam na janela são mais significantes do que aquele pesadelo. Algo sobre um corpo em chamas. Algo que sua mente precisa esquecer, mas tudo está bem. Um dia a mais, um dia a menos e o esquecimento virá. A ocupação com o campo as palavras do pai na mesa do café, as costuras da mãe na varanda... A vida é linda. Com giz ele escreve no chão do quarto “sou um sobrevivente”.

Mas a morfina acaba depois de um dia. As dores da drástica amputação vêm à carne, o soldado abre os olhos. Então sente o cheiro do álcool impregnado nas paredes, é um hospital. Tem camas brancas e uma maca ao lado de um corredor cheio de cortinas remendadas. O soldado lembra-se dos tiros, do sangue derramado, e logo ouve os gritos dos pacientes que estão ao seu lado. Tenta se levantar, mas não pode... Pois está sem as pernas. Não há nada ali, além de um vazio e ataduras banhadas com sangue velho. Ele vê a realidade, sente a realidade e quando olha para si percebe que está gritando.

Um grito de agonia, áspero e latejante que aos poucos desperta a atenção dos enfermeiros. Estes correm aguçados com seringas cheias de morfina... Injetam fortemente em sua veia em segundos ralos a dor do rapaz é trocada por uma sensação de calma, por ter os músculos relaxados. Logo os olhos do soldado vão se obscurecendo notando aquela casa de campo outra vez... Algo que expande o sono e logo, as pernas renascem, os gritos cessam e pássaros estão cantando novamente. O soldado está de volta a casa novamente.

Somos todos soldados largados numa cama de hospital. Com a impressão de ter o controle da felicidade mesclada nessa ânsia de bem estar. Temos morfina no sangue, morfina nos olhos. Morfina que cessa revelando os trechos bizarros, mostrando que realidade não passa de uma dose alta e durável. Permanece no sangue e depois é liberada na urina e no fim o que se resta é saber que por mais que conseguimos sentir nossas pernas, ainda sim permanecemos aleijados.

sábado, 11 de outubro de 2008

O Pierrot que não se tornou Arlequim


Colombina:

Olha-me assim, Pierrot...
Os teus olhos, Pierrot, são lindos como um verso. Minh’alma é uma criança, e teus olhos um berço, à luz do teu olhar, tenho ânsias de dormir, para poder sonhar!Os teus olhos dardejam! São dois lábios de luz que as pupilas me beijam...
São dois lagos azuis à luz clara do luar...

São dois raios de sol prestes a agonizar...

Olha-me assim Pierrot... Goza a felicidade de poluir com esse olhar a minha mocidade aberta para ti como uma grande flor, meu amor...meu amor...meu amor não pode ser seu, e sim do Arlequim...não chores meu doce Pierrot!"


Às vezes sem escolha nascemos assim, berço de carnaval. Rosto pintando em cores numa lágrima que desliza a sós. Da face até os joelhos, provando que sua ingenuidade foi abolida.
Sem escolhas o nomeiam de "Pierrot". Fixam teus olhos numa máscara presa neste baile de hipocrisia, e assim sem querer te deparas com aquele velho espelho e vês teu rosto coberto de silêncio.
"Onde foi parar todo aquele amor?".
Tentas empregar resposta a pergunta, mas os ecos não são tão fortes para que te faças ouvir.
Eis um Pierrot e nada mais, encarnação de todo esse amor ingênuo. Reverenciado por ser semblante de um amor puro e enteralado. Sozinho, igual à lágrima que guarda a sois em teu rosto.
Sabes que toda essa pureza que guardavas com precaução fora perdida naquela ultima troca de pares. Sabes que o fim está próximo, e seu amor renegado causara a sequela de toda uma existência. E de tua roupa cinza, agora haverá tons verdes , azuis e amarelo. E de teu rosto pálido, agora haverá um tom vivo conjurando sombras vermelhas.
E de Pierrot apaixonado a findar, Arlequim iras se transformar.

Então de todo aquele amor, sobrarás apenas as apostas de galanteios baratos... Das conquistas antes tão sentimentais usaras teu verso para consagrar a glória, somente da ida até a cama.
Tomarás a sobra de todos os sonhos, de todos aqueles seios descobertos. Nos bailes depois de enjoar de todas as damas e messalinas, irá atrás cobiçar o véu de cada Colombina. E quando conseguir a façanha da face. Somente os cacos irão fazer você notar... Que como Arlequim acharás teu coração! Quando outrora era Pierrot e este foste de ti roubado.
Mas tome cuidado Arlequim! Pois se te fizeres pensar... Desta máscara vai-te abendicar... Quando topares com lágrimas de colombinas a brilhar! Assim tão vil, lembrarás que naquele carnaval o final consagrou. Não só teu lindo choro, mas a velha alma que o chamou de palhaço nobre fracassado.
Pois neste ponto tu serás o unico, pois em coragem arrancará o coração, para voltar co mesmo prélúdio taciturno...Oh! Assim outra vez Pierrot.
Sentiras solidão outra vez. E Terás novamente a mesma dor de toda aquela ilusão. Por saber amar demais...
Serás Pierrot novamente por não conseguir retirar os sonhos de Colombinas que irão segurar a tua mão. Serás isso então, um maldito fadado pela a eternidade a perder sempre sua musa.
Tú meu Pierrot tristonho que renegas em ser Alerquim por não conseguir desmontar os sonhos dos corações como fizeram aos teus...
Não chores ainda! Ao invés disso....Dorme-te Pierrot abandonado! Dorme-te Que irás ter uma colombina que entendas teu choro consagrado. Que te faças esquecer toda essa dor. E que não te desfaça como peça inacabada, dorme-te meu Pierrot e sonhe com as mais belas esperanças.
Pois todo carnaval terá este mesmo final.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Crônicas De Mim Mesmo: Antes das duas e meia


São quase duas e meia da manhã, posso dizer que os dias são iguais! Mesmo tendo nomes comuns não vejo diferença nas segundas ou nas terças feiras... Ambas passam com a mesma cota de tempo exato.
São de fluxos iguais, estabelecidas de manhãs, tardes, e longas noites. As quartas são apagadas, refletem as terças, que não são nada originais! Nas quintas eu canto, às vezes um pouco de "Fouré" emendando com "Tom Jobim". Sextas são de um complexo terrível, de uma realidade estranha... Lembram-me dos sábados que antes aguardados com tanta expectativa, hoje são vividos com o desdém de dias comuns! Às vezes eu me canso dessa intensidade que é viver no auge de cada sentimento como se não restasse nenhum, porém!
A felicidade é imensa nas vozes, imitadas nas piadas sem razão. Humor para não morrer mais cedo eu acho.
Drummond dizia naquele velho verso que tudo pode acabar menos o humor. Só que às vezes, ou melhor, na maioria de todas elas... O humor é uma arma insensata presa na máscara social da falsidade involuntária! Os risos de fuga, a euforia transbordante, os pulos e gritos quando a luz acaba numa sala de cinema.
Usurpados quando a porta do quarto se fecha, daí dizemos: “Bem vinda Solidão, evitei você por tanto tempo e ainda assim, se lembra de mim?”. O barulho do nosso coração acelera e somos tragados de novo ao estado de silêncio.
Não importa quantas velas de aniversário são acesas a festa acaba no dia seguinte! È uma questão de tempo para que tudo volte aos dias normais.
Quintas, sextas, sábados, semanas.... Meses e eu estou aqui digitando pedaços do que sinto pesar!
Penso que escrever é certas vezes nos despir de nos mesmos, deixar enraizado o que sentimos. Medos, traumas, danos e amores perdidos. Não importa o tema, é sempre uma amostra que permanece latente nas profundezas de todas as sinceridades do que tentamos esconder!
È algo pulsante e inevitável, afundado nas entranhas do mar morto. Além de toda consciência expondo o nosso coração.
Digo que é uma forma de apostar na compreensão alheia, de entregar textos a deriva dos olhos de um estranho. Oferecendo traços de seu plano mais íntimo.
É como abrir a porta e deixar a vizinhança entrar. O primeiro choque vem com a situação da mobilha. De todos aqueles moveis desgastados e almofadas esburacadas. Depois o embate com as cores da parede, sem tom ou combinação misturando laranja com verde claro.
Simplesmente é assim invadem todos os cômodos de sua casa, pedem para morar com você, roubam-lhe os quadros. Quebram sua louça, sujam o seu salão. Expiando sua escrita ao ponto de absorver tua alma!
Escrever pra mim é necessidade que pulsa. Necessidade de mostrar que existe "algo mais" por trás desse garoto de boina preta que vos redige a palavra. Sei que essas linhas aqui preenchidas, são as mesmas que traçam a palma de minha mão. Algo cheio de silêncio enquanto, minha alma admira o luar.
È o que penso quando estou aqui beirando a madrugada, com os dedos latejantes de tanto digitar. Revelando meus desesperos em contos de três partes, com algumas poesias sem rima... Para que alguém além de mim possa cogitar nessas palavras o antídoto que espero tanto encontrar! Talvez essa cura esteja mais perto do que eu possa imaginar... Além de todas essas fotos, além de toda essa madrugada angustiante.
Talvez esteja nos olhos de ti, leitor(a) que neste teu leito invade meu leito, de maneira sublime e inesperada. Propondo estes ombros virtuais para que eu possa dizer o que faço nessas duas horas e meia que madrugam minha mente.
Estás folhas que de folhas só sobram a idéia, responsáveis por meus dias terem cores e estimas de um novo “viver”.
È desta cura vos digo ter um novo dilema para se escrever. Moldar e juntar num grito que enquanto tiver forças se findará além das duas e meia de um relógio velho. Além de um coração que invade. Além das três... Ora! Já são quatro!

sábado, 4 de outubro de 2008

Paliativo III "Olhos de cristais"


Eu queria que pudesse escutar as batidas de minha sina. Queria poder enviar essa eternidade de milênios na chuva, queria ver sua pele arrepiada pelo frio. Frio que me trouxe lágrimas.
Eu que sempre fui um observador nato do crepúsculo, hoje escondo estes olhos de cristais. Atrás do meu espelho, no chão estilhaçado. Os deuses causaram essa dor, agressivos raios de Júpiter, entrelaçado no sangue de Baco.

Condeno minha eternidade de Outubro, condeno meu destino numa garrafa de vinho. Meus olhos de cristais, ingênuos olhos que me findam. Meus demônios da meia noite, meu artefato de você. O que me restou daquela ultima tarde, o que me restou dela... Através daqueles mesmos olhos de cristais.
Lembro-me do sol, da chuva... Das árvores frutíferas do escuro naquele quarto, pouco a pouco
absorvendo minha alma.

Lembro dos risos, do cheiro doce dos teus cabelos. Eu me lembro.

Havia violinos e um piano, havia esperança. Havia serendipiedade.
Toda magia desencantada, não fui Jack, nem você Sally.
Não tivemos o nosso Halloween e fui obrigado a rejeitar o que sentia gota por gota me tornando algo cheio de frieza.

Juro! não queria pegar aquela navalha e perfurar teu coração. Cortar os teus pulsos e te matar aos poucos, vendo o que era nosso morrer. Não! Matei a mim mesmo, desferi todos os golpes no meu corpo. Matei-me aos poucos para chegar até você. Para dizer que tudo o que houve, não me constou em nada além de causa imprópria. Daquelas que são mais pesadas do que garoa, parecidas com tempestades. Mas somem com a vinda do sol.

Eu? Culpado, por deixar ser levado por uma encenação barata. Por palavras sem vínculos, acreditando crer que era peça rara. Quando não passavas de mercadoria qualquer, posta em liquidação. Culpado por te achar feita de cristal fino quando tu não passavas de um copo plástico descartável. Jogado no chão infértil, causando dor ao solo enlouquecendo o mundo.
Você? Culpada por quebrar os benditos olhos que para sempre lembrariam tua existência. Você, tão fútil como as outras, imatura imaculada. Individualista por viver, você.... Desperdiçadora de sentimentos que jamais sentiu. Que jamais teve olhos assim, cristalizados por lágrimas, frágeis como vidro. Olhos de cristais.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Na margem


Ele caminhava através das poças de água recém formadas, cinco horas haviam se passado e somente agora o sol reaparecia bem no final da tarde. O trafego seguia acompanhado com o coro de buzinas e o ronco dos motores, os pedestres fechavam os guardas chuvas. Ele sequer tinha um guarda chuva. Levava as gotas da tempestade no ombro enquanto sua pele continuava numa cor pálida devido à falta de comida. O vento fazia curvaturas em sua mente, sua língua ainda guardava o paladar amargo da bebida do dia anterior. No começo ele desprezava as doses impuras de aguardente, mas com a chegada do inverno aquilo era o único elemento capaz de oferecer calor. E assim ele foi se acostumando aos poucos com o aquele liquido forte que as garrafas de vidro ofereciam. Havia alguns privilégios que só o álcool trazia nada mais que o esquecimento momentâneo de sua vida. Por segundos famigerados, ele não se lembrava do cheiro de urina acumulada entre os farrapos de sua calça ou do perigo da noite entre os becos que aprendeu a chamar de lar.A bebida aliviava as dores de estado, transfigurava a realidade, o fazia esquecer a condição de morador de rua. Bicho solto, homem sem lugar. Quando o vento trazia o sopro gélido noturno, aqueles olhos amargurados procuravam por jornais na boca do lixo. Os sacos pretos ofereciam a ceia da madrugada, bastava uma boa revirada e um pedaço daquele lixo se transformava numa refeição não muito digna para um ser humano. Afinal certas vezes até ele mesmo desacreditava em sua humanidade. As pessoas não o olhavam mais como semelhante, e sim como parte da calçada peça camuflada em meio aos estereótipos de vagabundo, mendigo, homem de rua.

O fato era que um cachorro era mais digno do que ele, o cachorro recebia o afeto nos olhos de uma senhora ou nos abraços de uma criança. Singularmente ele estava na margem da sociedade, isolado e restrito no índice de moralidade. Depois de uma longa caminhada o andarilho avistou um teto onde podia passar a noite. Apenas um leve desejo de descanso, o único desejo que podia satisfazer naquela noite. Ele fechou os olhos e logo as lagrimas escorreram pela face deixando um rastro branco devido a sujeira acumulada abaixo dos cílios por toda bochecha. Mesmo estirado a solidão por todos os dias do ano, ela ainda conseguia dilacerar-lhe a alma. Perguntas eram inevitáveis nesse limbo de sofrimento interior. Por quês viam aos lábios, mas nada era respondido, nem mesmo quando deus era citado havia respostas. Tudo não passava de um vazio estirado numa sensação estranha de corpo molhado. Diferente dos outros, aquele ser largado não continha um recinto para se secar, sequer havia uma toalha depositada em algum lugar que lhe trouxesse a sensação que sem demora estaria seco. Ele queria falar, queria ter voz e dizer que alguns têm pouco e outras menos ainda. Mas a voz não saia, só lagrimas por viver a margem de um eterno rio sem canoas. Aquele chão pós chuva o fez lembrar uma senhora assim como ele dona de rua, bem letrada que adorava definir com palavras doces, fundos trágicos. Definia a realidade que afrontava tantos que ali viviam. Dizia ela com mais cana do que sanidade:

“Somos partes da margem, mas vivemos no rio. Afogados de tantos olhos retorcidos, invisíveis para os barcos e sinaleiros que passam a pressa por nós. Dizem de margem, mas é no rio que nos afogam de solidão.”

Desabrigado ele concordava com aquelas palavras. Fazia tanto tempo que ninguém o tirava para uma conversa, perguntando como ele estava, ou sua opinião sobre o tempo. Não era fome que fazia seu corpo despencar diante as calçadas, não era frio que causava aquela morte por etapas. Mas sim essa solidão cheia de gente, por todos os lados “multidão”, mas ainda sim ninguém. Aos poucos aquele homem metade sombra de retalhos outra metade desconhecida das fases da lua. Deitou-se aos poucos no chão frio... Enfraquecido desmaiou, lembrando um nome: José João Roberto Silva”. Morador de rua á vinte sete anos, coração desmontado aos doze, mãe perdida aos sete. Sagrado em sua desgraça, tentou manter-se numa terra longe a dele, esperança desiludida. Anos que não prosperaram, circunstancias adoecidas. Sem ter apoio foi ficando, fincando no chão na caixa de papelão. Sem muito morreu ali dormindo, insuficiência respiratória. Sem documento ou história gravada, nada além de uma imagem da Bahia, lugar que deixou. Morreu ali na margem, enfim afogado na saliva crua da sociedade, não se restou nada de mais nada. Na manhã seguinte quando o sol surgir, depois de alguns dias estirado ao calor. Mais um membro daquele caos urbano apodrecerá, aquela peça moribunda alcançara o olhar dos passantes levando o cheiro de podridão.

E então aquele homem alcançará os olhares renegados, os passos corridos, ultrapassando aquela existência transpassada. E por uma vez terá o mesmo cheiro familiar, comum que demonstrará mudança.(Criara mudança). Sua carne será mergulhada em formol escasso e seu corpo será aproveitado para medicina legal. E mesmo quando não restar nada além de nada ainda assim restará um esqueleto no fundo da sala de genética. Porém mesmo assim será que alguém quando observar tal figura saberá que foi José? Ou João?Quem sabe Roberto?
Aquele que um dia viveu as margens dos becos de algum lugar.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

O Espirro


Enquanto a motocicleta descia a imensa ladeira um espirro soou pela minha audição... Não vinha das moscas, quem dera as moscas pudessem espirrar! Não, pelo contrário era um espirro aberrante, feito de sons guturais que só podia ter vindo de um ser... Um ser humano!
Mas quem além de mim (Filho da espécie dominadora e mais desleal, habituada neste planeta) pertencia aquele espirro? A pergunta fora cretina, pois como eu havia dito estava numa moto e nada mais lógico e dedutível que o piloto tivesse espirrado!
Sendo que não havia outra pessoa por perto e a moto não pertencia a uma classe alienígena com poderes. Aceitei que o espirro havia vindo da frente, foi então que olhando para o piloto (que não era eu) disse:
— Isso foi um espirro?
— Acho que sim!
Respondeu o piloto, enquanto a moto chegava ao asfalto. As luzes da cidade retratavam que a noite havia chegado, se aquelas luzes falassem com certeza a frase dita seria: “Bem você está na cidade”.
— Seu espirro?
Agucei outra pergunta, ainda criando especulações sobre o espirro.
— De quem mais seria?
Respondeu o maldito piloto com outra pergunta.
— Meu! Ora!
Afirmei respondendo a outra pergunta respondida pelo piloto.
— Mas você não espirrou. Se tivesse espirrado, eu teria escutado...
— Como você iria escutar sendo que no momento estava espirrando. Alias como sabe que não foi o som do meu espirro que alucinou você a pensar que espirrou? A moto pode ter balançado e você pode ter pensado que espirrou. Sendo que não espirrou, pensou em espirrar enquanto na verdade eu espirrava.
— Eu sei quando espirro, não sou burro!
Deduziu brilhantemente o piloto. Nesse momento a moto já estava num ponto perto de algumas casas. Veio um pouco de silêncio e quando o assunto do espirro parecia acabado, agucei outra pergunta:
— Como você sabe quando espirra?
— Que pergunta idiota, apenas sei! Você quer uma explicação cientifica?
— Pode ser!
— Um espirro é reação convulsiva e involuntária de defesa do pulmão, garganta e o nariz. Pode ser causada por uma irritação alérgica ou apenas por bactérias que interferem no sistema respiratório. Na antiguidade tinha-se o habito de dizer "deus" a quem espirrasse, assim: “Deus te crie”. Ah! quase ia me esquecendo, quando um espirro era soado, achavam que a pessoa que espirrou estava sendo xingada...
— Como você sabe tudo isso?
Perguntei pela primeira vez perplexo com a resposta inusitada, afinal não é sempre que uma pessoa encarna um dicionário biônico.
— Eu assisto Discovery Chanel.
E novamente para o meu espanto fiquei perplexo outra vez, agora pela resposta que não atingiu a expectativa que eu esperava. Sem pensar muito sobre o tema comecei a improvisar com minhas palavras minha idéia de um espirro:
—“Espirro com a força que me resta, matéria que sai de mim, altura limitada. Voem meus medos, que saiem as partículas... Espirro o que me faz mal, o ar inalado, o tempo tragado. Espirro em A, com T e final de CHIM. Espirro para não lembrar o que será de mim”.
Quando acabei a improvisação a moto havia parado, e o piloto sutilmente disse:
— Ficou bom por que não escreve?
— O espirro ou a poesia?
— O soneto!
— Soneto com espirro ou espirro em poesia?
— Poesia em soneto com resposta sobre a história desse espirro.
— Pode ser, mas...
— Mas o que?
— MAS.... —um espirro enorme arremessou de minha boca— Droga!
— Quem espirrou?
Disse o piloto já ligando a motocicleta e seguindo caminho.
—Droga vai começar tudo de novo.
Daquele dialogo findou-se somente o silêncio. Assim como o apagar de cada espirro, o que fora aproveitado de tudo aquilo? Nada! Pois ainda assim era um diálogo.
Daqueles inúteis feitos na ocasião, por dois amigos loucos que seguiam rumo à civilização.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Parestesia %2


Escrevo estas linhas na escuridão que me deixou com tua resposta. Registro essas letras com o vazio que atormenta meu estômago. Passei todo esse tempo suprido por calmantes que induzem uma inconsciência. Meus olhos guardam estigmas de insônia, e meu leito mantêm o calor do inferno. Mas de tudo, o que mais sinto é essa chuva que dissolve toda minha desgraça. Eu não quero entender como dilacerou meus sonhos de amor pleno, ou como me fez em migalhas arremessadas à praça para que os pombos pudessem aliviar teu consolo. Eu fui sua peça substituída, seu retrato quebrado, os cacos do espelho que se partiram. Meu sangue coagulou em teus olhos, minha alma fixou em teu peito cicatrizado. Me pergunto então quais foram os motivos de tudo isso. Como pude sentir o escarro em lábios nos quais delirava em beijos? Mesmo sem querer fui obrigado a rasgar as fotos, queimar nossos presentes e tampar meus ouvidos para vida. Eu perdi tudo o que acreditava, quando li nos espaçamentos de seu diário a palavra tempo. Fui sendo despojado com o vazio de seu despejo. E quando a última esperança derramou em meu peito, os fatos comprovaram que meus valores foram eliminados um por um. Sei que enquanto vagava pela rua embriagado de tristeza, você esbanjava nossas palavras com outra pessoa.Tirou-me dos teus braços, através de outros abraços. E me forçou a enxergar isso de perto, a observar que já não existia em tuas palavras. Que eu não valia mais em tuas cerimônias. Que era apenas um pouco de pó acumulado na prateleira dos fundos. Nada se resta e nada se compõe. Se não em mim. Sinto-me culpado, humilhado por todo esse sentimento que ainda persiste. Sinto-me humilhado por saber que por toda minha respiração, eu ainda tenha você como principal oxigênio. Que de todos os cabelos longos que observo é o teu cheiro que dilacera minha carne. Meu ódio mescla á esse pseudo amor e meu âmago reage quando limito meus olhos a te observar. Jamais serei este seu. Jamais serei aquele que segurará a tua mão. Jamais serei a boca que toca a sua. Jamais serei êxtase desejado por seu peito enquanto transpira de paixão.O que me resta é deitar naquela cama e induzir o sono. Transformar-me em morfina até que não reste mais nada de mim e de você. Até que não sobre nada dessa inacabável parestesia.

sábado, 13 de setembro de 2008

Meus vinte e tantos nada



Ouvidos fatigados pelo som.

Fração diminuída já se faz metade de alguma coisa. Coisa que some e atingindo um numero novo: "calendário". Hoje de ante ontem. Mão desigual aplicada em circunferências por todo canto.

Deus! Já é vinte?

Por que?

Vinte capítulos num livro, vinte fábulas sem final...
São pontos, alguns com virgulas outros pedem interrogação, mas ainda há reticências.

Há o agora, há o nunca... Nunca mais, nunca mais... Deus! Vinte, será vinte? Por quê?
Nestas ruas estão meus fragmentos, nessas curvas desenvolvem meu lamento. Não há um blues, mas há solidão.

O escuro, à noite... Todos fragmentados em partículas exatas nas lentes negras: óculos. Enquanto houver um suspiro, enquanto eu for campos de morangos.
Haverá eu, haverá vida...

Talvez uma coisa sem senso, desestruturada por aqueles que estão numa parte de seu peito.
Talvez... Seja alguém, tão abandonado e acolhido. Transformado em ponto de ônibus, escadas rolantes, estações de trem. Cada um mexe com algo mais, além de movimentação de gente.

Deus! Ainda vinte? Por que?

Amanhã será trinta, vinte um, vinte dois... Mas hoje é vinte... Desolado, improvisado entre meus ouvidos fatigados.

Entre minhas promessas de aniversário.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Efêmero (Meu amor)



Meu amor foi embora, está do outro lado da calçada. Sentado nas praças, nos olhos dos casais que se amam.

Meu amor fugiu, está degolando todas as prostitutas no farol. Meu amor está nos braços do diabo, nas encruzilhadas do centro.

Meu amor...

Não mora mais aqui, morreu de overdose. Escapou com o ultimo tiro. Liquidou-se dentro do corpo daquela garota.

Meu amor estava louco, cavalgava pelas selvas dançando ao luar... Cavalgue para longe meu amor. Cavalgue meu amor, enquanto meu conhaque deixa a floresta em chamas.

Meu amor está preso, permanece atrás das grades, pegou doze anos... Por sangrar-me a carne.

Meu amor... Numa gaita rancorosa, numa garrafa de absinto. No retrato daquela donzela, nos lábios daquela senhora.

Amor que foi embora, um dia verei sua volta?

sábado, 6 de setembro de 2008

Foi-se

Aconteceu tão rápido, apesar do sono eu estava acordado.
Aconteceu sem menos saber se ainda era dia. Caminhei por tantos jardins decorados, visitei tantos pés de ipês amarelos. E ainda assim a primavera não veio.
Flores descobertas, folhas incertas tão certas de outra estação.
Ainda é inverno se o sol brilha? Ainda é inverno se o alto da serra inspira?
Meu coração sente fúria, meu olhar desaba em plangência... Imaginei ser primavera quando tudo não passou de um verão frio.

Não!Eu renego dizer que sou de inverno, que este inverno fecunda meu coração. Jamais vi inverno que fosse feito de verão.

Se não....

Se não...

Foi-se a impressão, duma primavera outrora inverno e noutra verão.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Vislumbre essa aurora esquecida

Acorde para uma manhã pálida, faça um dialogo com o céu de mármore fúnebre. Cite todas as quedas, todos os enganos. Todas suas desilusões por ter existido.

Transforme todos os carinhos em acidez, todos os beijos em escarro.

E engula o teu rancor com o mesmo sabor que degustas um chocolate.

Durma contando quantos corpos ainda apodrecem em teu cemitério, escute o lançar dos gritos de pânico em seu travesseiro.

Resgate seu ódio em troca de todos os perdões, resistas a essa dor e encontre o escuro. Ou deixe que escuro absorvas tua dor.

Guie-se pelo silêncio e não se importe se todos se importam, simplesmente ignore todas as palavras de calma.
Decline até a forca, traga a essência de um rubor, puxe a força de um escárnio. E aguce o teu sorriso para a parte negra da lua.
Queime todas as fotografias, alavanque seu orgulho....

Deixe-se fenecer todas aquelas merdas que nunca ousou conceituar de merda.
Deixe as vozes tristes, escreva poemas de ultima estância existêncial.
Por um dia perca esse maldito equilíbrio. Beba dessa taça gelada e incolor. Enxergues a verdade sobre o amor. E quebre todos os corações possíveis, assim como fizeram ao que está dentro de seu peito.

Uma vez deixe que felicidade se suicide
Uma vez mais, acuse o mundo e não á você

E faça de suas emoções o lixo que a sociedade um dia o fez acreditar que é. Mais uma vez vislumbre essa aurora que jaz esquecida em tua memória.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Sobre placas e cores.

No chão sinto o asfalto morno, escuro e ausente de cor.
Cor que se destaca de meus cadarços amarelos, entrelaçando meu pé, aguçando a vontade de correr sem olhar para trás. Minhas linhas ficam desnorteadas com peso das vidas que me cercam. Como citar todos e mesmo assim não conseguir citar ninguém.
Desconhecidos e conhecidos passam por mim, acho que os vi no natal... Ou foi ontem? Não me lembro de muita coisa se não de minhas dores e pesares, tinha que ser vinte? Talvez doze ou até onze, mas vinte é sem razão. Muito tempo para quem ruma sem destino, para aqueles que resguardam o infinito nos minutos. Deduzo meu tempo enquanto ando olhando o tom azul no fundo das placas. Aquelas situadas no começo das avenidas, placas que nomeiam as ruas onde o meu destino é atraído.

Vejo cada nome estranho.

A esquerda um “Deodato Werteimer”, e logo no cruzamento um “Barão de Jaceguai”.

A maioria se esquece do costume de nomear uma rua, essa crença ligada à lembrança existe desde a antiguidade quando os índios contavam histórias daqueles que partiam. Citavam grandes feitos, e o nome do privilegiado por assim dizer era imortalizado em torno da fogueira através dos contos.

Somente os grandes viravam história para inspirar os menores.

Hoje temos essa glorificação em meio das placas azuis, desprezadas pelos olhos da população, vidas que marcaram diversas pessoas, desconhecidos que viraram sinônimo de alamedas ou travessas. Lembrados somente quando pedimos pizza ou quando as cartas acumulam em cima da mesa. Acredite o nome que retrata sua rua foi uma pessoa, existiu teve medo e fecundou de forma tão majestosa a vida que acabou virando uma placa.

Certas coisas em nossa existência são assim, quando humanos viramos placas e de placas viramos rua.

E assim exatamente quando penso na ausência de cor daquela mesma rua, penso no nome em questão. Imagino quanta história está gravada naquele piche incolor e vejo milhões e possibilidades dando vida através de um nome, de um feito...
De uma alma que aos poucos se torna cheia de cores. E torna-se bem mais que um simples nome, bem mais que uma rua qualquer.

Torna-se parte de mim. Vida.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Anódino (O que ela queria dizer, mas não disse)

Nas entrelinhas eu estou fora de você, não opto desmentir as tuas palavras de suplica. Eu busquei algo que não podia me dar, não eram palavras ou sentimentos puros que procurava. Eu chantageei tua saudade, abriguei tuas ilusões dentro de mim. Sou um pedaço da roda daquele velho ônibus, fui até o fim e disse que nunca iria embora.
Simplesmente menti.

Não quero mais teus presentes, não quero tua paixão ou sentir teu cheiro nos incensos que me enviou. Meus olhos não interligam em sua crença, e nada mudará minha opinião. Você tampou os teus gritos, e jogou teu corpo em pleno sacrifício. Mas não podia me dar sua presença.

Fui fraca em esperar, e mal pude acreditar.

O que são palavras quando é preciso à alma, o que é uma alma quando se tem o tato.
Foi fácil te substituir, os olhos de vidro viraram olheiras de carne. Sua voz grave intransferível fora trocada por uma caixa de ninar. As tuas histórias que me acalentavam na cama, troquei por um toque.


E rapidamente matei você em mim.

Sem choros, ou traumas troquei o teu amor verdadeiro por um óculos frágil. Néctar de ópio, sono sem vida... Troquei você

Um dia quando parar essa pulsação novamente, vou me interagir com outra cama, ouvir novas histórias.Fugindo inospitamente de você, fugindo de meus próprios olhos.

Ou o que fiz a ti..

Simplesmente menti.

domingo, 17 de agosto de 2008

Paliativo II "Sacrificado"


Eu sufoquei meus gritos para que então você pudesse gritar...
Afoguei-me em lagrimas, para nunca mais te ver chorar.

Ofereci-me de sacrifício, para que você não precisasse se mutilar.

Fui recortando as mágoas, colando as dores, guardando-as somente em mim, nunca deixei resíduos que pudessem barrar o teu caminho.

Foi por você que rasguei minha alma, feri minhas conseqüências e fui enviado ao exílio...Somente para deixar-te seguir...

Fiz-me de caixa para que jogasse tudo o que tivemos dos momentos aos esquecimentos. Para que assim pudesse escrever novas cartas, estabelecer novas lembranças.

Somente para deixar-te seguir. Implantei-me escuridão para enviar-te a luz, e assim fui me tornando Avatar de sua partida.

Eu fui muito você e você nada de mim.
E no presente mil pedaços se perdem.
Sendo pra sempre parte do que me foi.


Tentando decifrar aquela despedida.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Aquele que me carregou nos braços


A cada minuto que passo descrevendo minha vida, lembro das tuas palavras nos dias de chuva, dizendo com razão paterna de quem já viveu. Nunca foste de desperdícios, até nas falas era de bom senso e ia direto ao ponto. Seu apoio de joio especial me carregou nos braços quando em pernas mal conseguia me sustentar. Me atiravas ao mar quando sentias medo da água fria, me provando que devias acreditar e que os saltos nem sempre dependem de nossas próprias pernas, pois em certos casos é preciso o impulso.Apelidou-me de pequeno, filhote, filhotinho e mesmo quando não tinha idade para entender as palavras. Me cultivou em historias, e me ensinou em quadrinhos, fitou-me como tesouro raro, daqueles enterrados no coração e quando entendias do que era uma ameaça ao roubo, armava-se com punhais e dentes para minha proteção.Dias se passaram e de pequeno virei médio e de médio aos poucos fui crescendo. Hoje das palavras já entendo os desenhos, e mesmo ao mar ainda temo saltar. Hoje tenho os teus cabelos castanhos e sua face jovial. E por mais que ache que de tudo já passei, ainda me prova que de muito ainda terei de passar.

Hoje entendo o teu silêncio, e mesmo inospitamente sei que está de olho em todas as minhas decisões, ainda se preocupando nos saltos e me amparando nas quedas.Tenho seu jeito de falar, a mesma ira em se expressar. E o modo distinto de amar, e daquelas histórias que tanto admirava quando me contava hoje me admiram quando as conto.Sim, você é o meu pai... Aquele homem que crescemos vendo ir ao trabalho e com isso aprendendo o que é o sustento. Aquela voz grave que tanto tememos ao escutar, e que depois de certo tempo fragmenta em nossa mente como voz da saudade.Algumas pessoas dizem que heróis não existem, e que espelhos só servem para termos uma visão embaçada de nos mesmos.

Acho que essas pessoas não tiveram o prazer de te conhecer, pois se tivessem essa oportunidade saberiam que em seus atos a palavra heroísmo consegue seu significado mais pleno. E que se toda humanidade tivesse um pouco do teu reflexo, nada seria tão seco.Hoje eu sei que tenho muita sorte por ter alguém a quem me espelhar, alguém tão grandioso. Isso será minha maior herança.. Se um dia quando olhar ao espelho e ver que herdei os teus traços, que segui uma vida parecida a sua, será uma realização maior que qualquer sonho que guardo dentro de mim.

Um dia pai, contarei sua história para que todos ouçam, para que todos ouçam e vejam que por trás de um nome tão simples. Houve um ser humano fantástico que alcançou o amor verdadeiro. Que curou a própria dor diversas vezes, para que assim pudesse vender o remédio.
Através de um sorriso.Contarei a tua história para que o mundo possa ver, quem me carregou nos braços... Quem pra sempre e muito mais, chamarei de "Pai".

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Crença D'água


Um homem caminhava por imensas dunas de areia. dias talvez meses haviam se passado. O caminho de volta fora perdido. No principio era ele como um naufrago, vindo de algum sonho desfeito. Talvez fosse o único sobrevivente de um desastre ecológico. O último humano a desbravar montanhas douradas de um deserto. Um deserto de areia e vento, escaldante e tão quente quanto o inferno.
Já fazia algum tempo que o sol havia fritado o que ele acreditava ser realidade, sua mente estava alucinada e não pensava em algo além de água. Todas as virtudes e dotes que um dia havia aprendido na vida, não bastavam em nada. Todos aqueles momentos que passara fazendo analise psicológica, vencendo os medos e sinas para enfim poder dizer que possuía o titulo de pessoa "normal", sequer o ajudavam em meio daquele clarão. Por mais integro e dotado de preceitos inatingíveis que o faziam com que as pessoas o vissem como um grande homem de nada valiam. Pois por mais que possuísse status necessário para dominar uma cidade, aqueles simples conceitos eram incapazes de ultrapassar os lençóis freáticos e fazer com o que jorrasse água do chão.


Todos os livros que havia lido,paginas implícitas de auto-ajuda, não faziam com o que seu medo desaparecesse . De nada adiantava, olhar para dentro de si.. De nada adiantava saber quem havia sido . Mestre ou doutor, ele continuava a sós sob o deserto.
O desastre, havia acontecido e ele estava ali, a margem das dunas com a boca seca, corpo desidratado... E mesmo assim uma vontade vinha de alguma parte além de seu físico.
Era uma espécie de força difusa, que o levava a querer mais do que estar ali e ser entregue a morte. Ele não sabia quanto tempo ainda viria agüentar sem água, mas não podia simplesmente parar, e se deixar morrer. Sua vontade, sua presença o interligava numa esperança inepta... E com menos fôlego que uma criança pequena, aquele homem olhou o horizonte a escalou a duna de areia, inspirando pó.

Em meio à essência e alma do deserto, sentiu a força dos anos que as areias produziam. Dos povos que ali haviam sobrevivido ao calor. Que haviam fincado sua marca, uma vez mais antes do vento apagar as pegadas ali mantidas, e ele, homem vagante sentia uma energia de passagem postada ali. Talvez fosse aquela força, responsável por invocar seus sentidos de esperança. Era umas de muitas heranças que o deserto doava para aqueles que desbravam as areias em busca da sobrevivência.
Quando ele chegou no limite final daquela duna, observou uma cabana simples e desgastada, amadeirada das portas até o telhado, construída no alto, poupada pelas tempestades de areia. Não era a apenas a imaginação febril daquele homem, a cabana possuía um quesito em milagres ou os milagres possuíam um quesito com aquela cabana. Arrastando-se, ele conseguiu chegar até a porta, empurrando de modo desajeitado com a cabeça, descobriu que já estava aberta.
Para o espanto e tristeza daquele sobrevivente a cabana não continha vida humana somente alguns barris de carvalhos e algumas cordas jogadas na areia rala.

Por mais que a cabana num primeiro vislumbre não oferecesse nada além de velhas tralhas, o ambiente coberto era de imenso frescor. Não fora preciso muito esforço, para que o corpo desgastado do sobrevivente caísse nos braços do sono, momentos foram despertados e cenas apareciam convertidas em cacos de uma memória velha alinhada, transformada em sonho... Faces acirradas, papeis espalhados no chão... Terror nas faces alheias, eram as lembranças que os sonhos traziam. Por um instante ele via-se diante outros olhos, palavras rudes e um mau humor deplorável, estarrecia lagrimas em outras pessoas. Nascia o monstro em segundos de descontrole, raiva pulsava naquele homem engravatado. Por mais fino que fosse ainda sim achava motivos para desqualificar as pessoas, colocar cada um em seu lugar, mesmo que para isso fosse necessário destruir os sonhos alheios. O sobrevivente estava assustado, aquele homem vestido com um terno cinza e gravata vermelha, certamente tinha a mesma face que a dele.
Não! Aquilo não era irreal, eram fatos enraizados em sua mente, fantasmas que chacoalhavam suas correntes de débito. Ele nunca havia estado tão envergonhado de quem era... Quantas pessoas devem ter chorado por suas palavras grossas e desnecessárias? Quantos amigos devia ter perdido por julgamentos mal pensados, acolhidos por ira passageira? Por um momento aquela revelação vinha em sua mente enquanto sonhava, nesse momento ele se lembrava de dirigir um carro numa estrada imensa cercada pelo deserto. A viagem estava no fim quando uma tempestade de areia enegreceu o para brisa, ofuscou sua visão e o carro perdeu sua rota e mergulhou no esquecimento das areias e do tempo. O celular foi uma esperança, mas depois do ultimo gole d’água as esperanças começaram a serem liquidadas pelo sol e logo vinha o desespero. E assim de homem de negócios, ele virou um homem sobrevivente, das gravatas foram feitas as amarras e um chapéu improvisado, o terno fora rasgado no meio e improvisado em sapato. E por fim a realidade do sol o ensinou a temer a vida. O deserto o levou ao encontro da morte muitas vezes, mas ela por algum motivo o ignorava. E sem mais ele havia chegado na cabana, e continuava ali... Adormecido, desnorteado até que uma lasca pesada de madeira caiu em sua cabeça e o despertou.

Não havia mudado muita coisa, as cordas e barris ainda continuavam ali, ele se lembrava do sonho, e agora tinha certeza de quem havia sido... Desejava mudanças, mas sabia que não lhe restava muito tempo de vida. Então se levantou e foi em direção ao deserto, queria ter sua lápide ali fora junto da areia. Tendo as estrelas e o céu como ultimo vislumbre. Foi então que teve uma idéia, por que não chegar mais perto das estrelas? Subir no alto da cabana e sentir o hálito de deus... Com seu ultimo vigor escalou a cabana, porém não conseguiu se fixar nos vãos de madeira. Precisava de algo que pudesse pendurar. Não precisou de muito raciocínio, para lembrar das cordas que permaneciam na cabana...

—“São velhas mas dão para o gasto” .
Imaginou ele sorrindo, era o primeiro sorriso que despertava depois de muitos anos, mas ele nem se deu conta que estava sorrindo. Ironicamente sorria para morte, quantas oportunidades havia tido ele para sorrir? E sequer ligou para sua face. Metas, custos e impossibilidades... Lemas que o levaram para aquele fim. Uma eternidade em passos pequenos, foi o tempo que o homem levou para chegar dentro da cabana, passos turvos e o pulmão carregado e uma ânsia repentina. Assim que ele abaixou a mão para pegar a corda, um vômito ralo o deixou de joelhos no chão,os joelhos doíam assim como a cabeça e o estomago.
—Estou morrendo é o fim...
Palavras soavam de sua boca numa morbidez sem igual, ele recostou as costas lentamente em um dos barris e aguardou o semblante final de seus segundos.Porém sentiu algo entre suas costas e o barril, era gelado e firme, assim que pegou o objeto, o homem ficou surpreso:

“Uma garrafa com água”.

Aguçou ele, sua esperança estava reativada, podia sentir os lábios úmidos desejando a tragada, quando tirou tampa da garrafa e ia levando até boca, percebeu uma carta no chão... Segurando bruscamente o desejo de água, ele pegou a carta e leu as seguintes palavras:

Meu caro amigo, escrevo nessas linhas dizendo que a sua direita há um poço, desses antigos que precisam de água para emergir mais água. Porém para isso ser possível, é preciso uma dosagem certa de água. Por isso meu caro,não beba uma só gota dessa garrafa, pois se beber a água vai acabar "e não será possível tirar mais água do poço" então você não sobreviverá aos dias seguintes... Pois não haverá água necessária para tal ato. Portanto deposite toda água no funil acima do poço e gire a manivela, assim que fizer isso água vai emergir do fundo do poço e terá toda água que conseguir tomar...
PS- Quando terminar encha a garrafa outra vez e coloque em baixo desta mesma carta. Para que outro possa compartilhar desse poço, não se esqueça isso é muito importante.

Boa sorte.

O sobrevivente logo procurou o tal poço, e o achou atrás dos barris como dizia na carta. Estava tudo conforme as linhas descritas, porém a superfície do funil onde a água devia ser derramada estava totalmente enferrujada. Poderia não haver água ali? Quanto tempo aquele poço poderia já estar seco? Não havia garantia de água somente a que estava naquela garrafa. Mas a carta estava certa, aquele gole não era o suficiente para que um homem pudesse sobreviver ao deserto... Tantos dilemas encurralavam o sobrevivente, ele nunca fora bom em questão de confiança. Milahres de duvidas acendiam em sua mente como... Porque deveria ele acreditar? Aquela água que trazia na mão poderia ser perdida derramada ali, e se nada saísse daquele poço? Ele estaria perdido e sem água nenhuma.

Foi então que descobriu uma coisa, sempre agia por medo. Desfazia assuntos por ter medo e não confiar nas possibilidades. Sua ira e raiva não passavam de insegurança, desde sempre tinha medo que outros o machucassem então atirava espinhos. Porque não fazer diferente daquela vez... Porque não confiar uma vez e poder não só se deliciar de um gole d’água, mas sim de muitos goles... Com este semblante de fé ele despejou á água no funil enferrujado e movimentou a manivela, e água jorrou... Não escura como ferrugem mas clara e limpa como das fontes naturais que ele tanto sonhava. E então o sonho de beber água havia se realizado, não só por uma vez apenas, mas sim muitas vezes com água suficiente para banhar a nuca e armazenar água além do próprio corpo. Sua crença o trouxe bem mais que do que ele imaginava.
Não se sabe se o sobrevivente do deserto enfim sobreviveu à trajetória, o que se sabe... È o que as areias nos contam. Que talvez ele não tenha morrido naquele dia e conseguiu presenciar mais uma vez o bafejo doce das estrelas sob o deserto. È certo que o homem violento e raivoso que era, se perdeu nos rastros deixados nas areias, e somente o que seguiu fora sua alma... Limpa e pura como água que jorrava do poço na cabana.
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"Nota do autor"

Temos medos de arriscar em desafios que parecem ser impossíveis, dignos de não ter crença e que nos fazem temer pelas circunstancias. Porém é somente acreditando que tudo pode dar certo. Temos que enfrentar sem desdém, só assim podemos vencer. E desfrutar de momentos mágicos eternos, como um grande poço sempre jorrando todos os dias aquilo que sonhamos, ao invés de nos adaptarmos com uma garrafa triste de água que possibilita apenas um leve frescor durável restrito ao tempo.
Eu odeio palavras tolas dizendo, "vamos filho acredite, acreditar é poder...". Mas o que é pior do que fraquejar e nos adaptar a realidade? Aceitar sonhos menores... Sentimentos menores, porque simplesmente temos medo das circunstancias. Não! Isso pra mim é história da Carochinha que coincide numa vida sem aventuras, demasiadamente tola e sem paixão necessária. Por mais que se trate de otimismo barato, é melhor que rasgar os sonhos numa fogueira e mentir para o mundo inteiro e pior mentir para você . Então limpe a retina e busque o quer, pois mais cedo o mais tarde isso pesara em suas decisões como uma esfera mal conquistada. E ai que acreditar faz toda diferença...

Cleber Vaz . . . (O tempo voa)

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