sábado, 4 de outubro de 2008

Paliativo III "Olhos de cristais"


Eu queria que pudesse escutar as batidas de minha sina. Queria poder enviar essa eternidade de milênios na chuva, queria ver sua pele arrepiada pelo frio. Frio que me trouxe lágrimas.
Eu que sempre fui um observador nato do crepúsculo, hoje escondo estes olhos de cristais. Atrás do meu espelho, no chão estilhaçado. Os deuses causaram essa dor, agressivos raios de Júpiter, entrelaçado no sangue de Baco.

Condeno minha eternidade de Outubro, condeno meu destino numa garrafa de vinho. Meus olhos de cristais, ingênuos olhos que me findam. Meus demônios da meia noite, meu artefato de você. O que me restou daquela ultima tarde, o que me restou dela... Através daqueles mesmos olhos de cristais.
Lembro-me do sol, da chuva... Das árvores frutíferas do escuro naquele quarto, pouco a pouco
absorvendo minha alma.

Lembro dos risos, do cheiro doce dos teus cabelos. Eu me lembro.

Havia violinos e um piano, havia esperança. Havia serendipiedade.
Toda magia desencantada, não fui Jack, nem você Sally.
Não tivemos o nosso Halloween e fui obrigado a rejeitar o que sentia gota por gota me tornando algo cheio de frieza.

Juro! não queria pegar aquela navalha e perfurar teu coração. Cortar os teus pulsos e te matar aos poucos, vendo o que era nosso morrer. Não! Matei a mim mesmo, desferi todos os golpes no meu corpo. Matei-me aos poucos para chegar até você. Para dizer que tudo o que houve, não me constou em nada além de causa imprópria. Daquelas que são mais pesadas do que garoa, parecidas com tempestades. Mas somem com a vinda do sol.

Eu? Culpado, por deixar ser levado por uma encenação barata. Por palavras sem vínculos, acreditando crer que era peça rara. Quando não passavas de mercadoria qualquer, posta em liquidação. Culpado por te achar feita de cristal fino quando tu não passavas de um copo plástico descartável. Jogado no chão infértil, causando dor ao solo enlouquecendo o mundo.
Você? Culpada por quebrar os benditos olhos que para sempre lembrariam tua existência. Você, tão fútil como as outras, imatura imaculada. Individualista por viver, você.... Desperdiçadora de sentimentos que jamais sentiu. Que jamais teve olhos assim, cristalizados por lágrimas, frágeis como vidro. Olhos de cristais.

3 comentários:

Gabriele Fidalgo disse...

Tão profundo e visceral.
Você e a sua literatura 'dilacerante'. As emoções descritas são palpáveis.

Allos_Nerelin disse...

Ola bem interessante o conteudo!

Felipe Anjos disse...

elas sempre são culpadas por gostarmos delas
elas sempre nos destroem. Destroem nossos olhos de cristal
meu medo de não ver mais com olhos de crianças.elas sempre serão culpada ...