quinta-feira, 16 de julho de 2009

Belas Verdades


Relógio o desperta. Nove horas carros passam a eletricidade urbana desencadeia vida. Mal humor do homem grisalho. Impaciência do contador de custos. Um avião cai, pessoas morrem. Corpos alagados de tanta água salgada. Ume menina de cinco anos sobrevive, milagre? Ou maldição de estar em meio aos corpos podres dos próprios pais?

O relógio o desperta, nove horas e a sensação de peso grita entre seu espírito. O IPI está baixo, o povo cego e os carros avantajados. Analfabetos na fila do pão. Deus está morto pelos livros científicos. O macaco é adão, e o éden é uma casa de mulheres banguelas que aceitam vale transporte em troca de um bom sexo. Camisinhas estouram, garotas jovens engravidam por rasgarem demais.

O relógio o desperta... Nove horas! A menininha de cabelos cacheados se faz de esperta. A TV comercializa crianças por audiência. Inocência em baixa. Neverland é louvado por flores. Pedofilia em alta. Estupro e o vaticano coexistem numa mesma frase: Padres consomem crianças em baixo da batina.

O relógio o desperta, nove horas. Sociedade interrupta, robôs que brincam com a humanidade. Porcelanas em cacos retalhados no lixão, pessoas passam fome. Satisfação completa do homem gordo no rodízio, vacas, bois e porcos. Consumidos! Enlatados e fritos! A áfrica não fica muito longe daquela esquina de papelão.

O relógio o faz dormir. O estrume é encoberto por lavanda e o som alto diminuído por cantos de pássaros alpinos. Belas verdades, fator nosso de negação.

domingo, 12 de julho de 2009

BR 8




A neblina mancha o para brisa do carro, meu rosto oscila na sombra do vidro. Nas arestas das gotas, avanço para um dilúvio cristalino. Todas as minhas tristezas escorrem pelo retrovisor. Arvores passam diante minha visão, distantes do meu toque, perto do meu coração.

O rádio desencadeia músicas antigas de um rock imortal.


Acelerador? Esta nos meus pulsos, acelera na medida em que abraço a estrada! Deixo o passado de lado embarcando num destino de bilhões de possibilidades. O tempo não existe, ele se espalha na quilometragem de cada placa. Tempo é passageiro desses que ficam só de passagem e somem na primeira alvorada assim que o sol nasce.


Transito por várias paisagens, dessas que arrancam nossas emoções e nos moldam a carne aumentando o anseio da estação atual. Cada fuligem de outono, cada nascer de primavera... Estações me lembram gente, até mesmo algumas que quero esquecer.
Se pudesse vivia tudo num dia só... Isolamentos de inverno, apego intenso de um verão disperso. Tudo isso emoldurado nessa paisagem de outono.
Estrada para aqueles que não possuem asas.

O volante desliza em minhas mãos, as curvas condizem em paisagens novas. Voar no asfalto em sessenta por hora. O horizonte diminui num raio laranja, o sol se despede da estrada. Woodstock está longe de mim, presa num tempo que não vivi.


A estrada consome minha saudade... Aquela da infância que vendi. De pessoas que fugi.
Estrada que me faz fugir.


Estende-se em sua faixa negra. interminável viagem para qualquer lugar.


Longe de todo mundo, das nuvens, do mar. Longe mesmo, bem longe assim...


Longe até mesmo de mim.

sábado, 18 de abril de 2009

Quando a morte invade sua sala



“Coração, por que tremes? Vejo a morte
Ali vem lazarenta e desdentada. ..
Que noiva!. . . E devo então dormir com ela?
Se ela ao menos dormisse mascarada!”

Álvares de Azevedo


O vento vibra as folhas das arvores, crianças dormem quietas num sono inocente, envolvidas na profundidade aconchegante de seus cobertores. Nas ruas os panfletos dançam acompanhados de sacos plásticos que bailam emudecidos, regidos pelo compasso do vento... Navios ancoram no porto, suas velas ainda se mexem. A noite é fria para corações partidos. O vento traz cinzas do passado, os quartzos balançam tilintados pela dor dos perdidos. Estes que ancoram não como os navios, mas como um espírito intenso de saudade estirado a longa noite. Poetas destilam poesias, enquanto o vento docemente os acaricia feito brisa.


Uuuuh! Ouve-se o som do vento, elevando os gritos imaculados guardados na garganta. A mulher estrangulada, o lobo que uiva, o menino que chora abandonado em um cesto.
Uuuuh!! Diz o vento em resposta maldita, amedrontando aqueles que ainda serão julgados pela lei do destino.

Uuuuh!!! Respira o homem aliviado vendo a morte sentada na sala de estar. Sabe ele, aquele é o fim. Partira junto ao último lançar do vento.


—Não haverá mais tempo de fechar as janelas, elas permanecerão abertas. Agora o que me resta é somente redenção.


Dizia o suicida com os pulsos cortados. Ele sangra calmamente, pensando em algum alivio definitivo que está prestes a chegar. Alivio que para ele é definido em não existir. Seu único pensamento se resume numa chance de não ser cheio de marcas, de não ser o alvo dos erros.

A ação havia sido minutos atrás e mesmo assim ele ainda conseguia sentir o ar frio da lâmina chocando-se a pele, em seguida somente ardor. Sangue havia jorrado manchando toda cama, os corredores até a sala. Observando o teto sua vista logo estremecia focos paralelos ligados a infância que lhe surgia à mente,sua vida ia embora junto ao sangue que coagulava aos poucos no chão.

Não tinha ele outra deficiência além da ausência de fé. Portava um corpo tão saudável que há anos não se gripará. Não tinha sequelas no cérebro ou apresentava chagas de uma cegueira... Ele não media assuntos com probabilidades, não existia aquela palavra em seu dicionário mental. E assim, simplesmente por falta de uma palavra, ele cortou os pulsos, jogando fora então todas probabilidades que sua vida tinha para o conserto. Talvez ele não tivesse realmente motivos de tomar aquela decisão. De riscar o corpo em escala com uma tinta incapaz de ser encoberta. Afinal ele não propunha motivos a si mesmo para o recomeço. E através disso assinava seu acordo em definitivo, sem entrelinhas... Somente com um ponto final.


E Naquela imensidão, ele a atraiu. Como se um ritual fosse realizado trazendo-a dos sonhos até a vida. Invocada por aquela poça de sangue transbordante que permanecia concentrada no meio da sala. Sangue vivo, escasso e bem vermelho, transparecia como um neon carmim.

Em cima da mesa postava-se o envelope escrito num tom azul numa boa caligrafia. Era sua despedida para os poucos que haviam compartilhados os momentos de vivência. Sua explicação para que outros soubessem o quanto havia tentado, mas de fato não havia conseguido.
Como um bom suicida, ele havia deixado sua mensagem. Algo que definiu depois como cláusulas de aborto, encoberta com uma histeria de pessimismo. Tudo estava conforme sua improvisação. Tudo menos a possibilidade de encontrar a morte em pessoa enraizada na sua sala, observando o vendaval que se estendia.

—Eis me aqui! Sangro meus pulsos por você, leve-me.


Disse o suicida para os olhos negros da morte, aceitando a idéia que ela estava ali pelo simples motivo de levar sua alma.
A morte que permanecia sentada em um dos sofás de costas para janela. Vestia um manto preto, mostrando um porte fino e bem integro.
O silêncio permaneceu, ainda que as cortinas beirassem o teto. Novamente o Suicida tentou:

—Eu terminei minhas preces, pode me levar. Não preciso mais de votos de despedida, esperei muito tempo por você. Estar aqui e olhar nos teus olhos, poder sentir o teu cheiro. Saber que minha única saída é me entregar nos teus braços....

—Fala comigo como se eu fosse tua musa - Cortou a imponente criatura num tom vibrante feminino—Não sou nada mais que causa natural na vida de cada ser. Por que me desejas tanto? Sequer sou bela?

—A beleza é apenas um conceito estabelecido por aquele que a retrata. O pintor que tece sua obra não limita a outros olhares se não o próprio. Para mim eis linda como forma distinta, minha última crença... Por favor, envolve-me nos teus braços, eis a única que pode aliviar o sofrimento de um desgraçado entregue ao desespero. Veja!—suplicou o suicida mostrando os pulsos cortados para a morte — Já está feito, não há mais volta... Acho que desde começo nunca houve crença de volta...

—Eis amante dos versos pelo que posso escutar. Só um eterno romântico falas na beleza com tamanho potencial puro. O problema com os românticos é que são estimados num lamento profundo, num drama reluzente. —A morte subitamente se calou, deixou-se ser absorvida por um silêncio cheio de sons urbanos e assim continuou su fala— Até parece que não me conhece, moço dos pulsos cortados. Sou aquela que vaga na escura noite! O ar frio sentido na espinha... A dona das moradas fúnebres. Se me conhecesse realmente não teria essa crença poética.

Respondeu a morte transparecendo uma calma de séculos, mostrando desdém pela crença do suicida. Ela que rapidamente levantou-se do sofá se agachando no chão frio. Logo tirou o capuz preto e olhou fixamente para o suicida.

—Então é essa face da morte!

Espantou o suicida deparando-se com algo que jamais imaginaria ver... Uma face tão humana quanto a dele. Olhos negros, pele pálida e cabelos cacheados numa beleza mórbida e obscura. A morte para o espanto do suicida, trazia uma beleza divina e incomun.

–E O que você esperava?

Indagou a morte para suicida notando sua expressão de fascínio.

—Eu não sei! Algo como um esqueleto, talvez.

— Vocês humanos sempre caem no mito da putrefação... Nem tudo é matéria sabia! Eu não sou somente o fim da carne... Sou vida também ora... Afinal tudo que fenece se transforma em existência. Quanto a minha face, eu poderia ter qualquer forma, mas prefiro parecer com vocês...
—Nós?

Perguntou o suicida confuso.

—Sim vocês!—Continuou a morte, agora caminhando pela sala olhando atentamente para os quadros na parede— Mortais... Humanos... Seres bípedes que se dizem operados pela inteligência e negligenciados pelo instinto. Vocês que transformam quase tudo em caos. Vocês que ferem o solo, agridem a terra, e mesmo assim fertilizam a vida. Vocês que conseguem por intermédio de um botão falecer mais existências do que eu consigo em uma década. Matam por números, riquezas e derivados desse meio terreno... E alguns—Dizia ela voltando a face para o suicida— até mesmo descontentes em tirar a vida do outro , matam a si mesmos...

Pela primeira vez o suicida pensava no dano que causara a própria vida.. Por um momento ele permanecia duvidoso pelas palavras ditas pela morte.
—O que acha agora meu caro... Não sou eu tão humana quanto à própria humanidade?

—Sim! É completamente humana...—Respondia o suicida enquanto a morte concordava mexendo a cabeça— E digo mais.... È tão humana quanto é tagarela.

—Como assim Tagarela?

—Você fala demais! Juro pensei que a morte tivesse um ar de descanso eterno. Mas não! tudo que vejo são ladainhas. Como se pode descansar com ladainhas sobre o quanto nós humanos somos desprezíveis? Acha que eu não sei de tudo isso?

—Eu acho que ...

—Com certeza você acha alguma coisa não é?... Mas deixa eu te falar, você não tem direito de achar nada. Você invade a minha sala e fica pregando essas filosofias de terceira... Mas que merda!

O suicida subiu numa nova postura levantando-se do chão, estava furioso. A morte esperava calmamente por uma brecha entre os gritos e discordias do suicida. E essa brecha se sucedeu ela disse o interrompendo:
—Eu não quero que você acolha as minhas filosofias e também não sou uma invasora e sim uma convidada afinal, quem causou a própria morte aqui?

—Qual é o seu propósito?
Cortou bruscamente o suicida bloquenado a pergunta.

—Matar, trucidar aniquilar... Cessar algo de sua existência.

—Eu não estava me referindo ao seu objetivo no universo.

—Ah! Desculpe sou meio direta... Eu...—fitou ela para paredes engasgando as palavras, tentava barra sinceridade mecanica que posssuia.— Apenas quero conversar com você, entende? Bater um papo.
—Não entendo, como assim um papo?

—Mas você é meio lentinho né... Um papo! uma prosa! um dialogo! Eu respondo suas perguntas e você responde as minhas... Aproveite, a maioria não tem essa oportunidade!
Exclamou ela sentando no sofá novamente.

—Oportunidade? Não vejo nenhuma oportunidade... Não quero conversar, eu quero morrer. Apenas quero morrer... È pedir demais é? Quem eu tenho que matar aqui, para poder morrer.
—Por Deus! Você consegue mesmo irritar... Olha o que está diante dos teus olhos... Você tem a oportunidade de questionar a morte... Entende? Dialogar comigo, saber o que virá... Esse é o custo para eu te levar. Ah... Sacou?
—Não me diga que pra morrer também tem preço?
—Capitalismo celestial meu caro, eu exijo algo e você me dá... Achou que era só cortar os pulsos e pronto. E então o que me diz... Aceita as minhas condições de ter um dialogo?

Continua....

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Em sentimento há sentimento!



Uma vez alguém me perguntou sobre sentimento...

Essa coisa desvairada que toca gente como eu. Gente assim tão amiga do papel, gente que não aguenta uma batida forte no peito, que enaltece com o brilho nos olhos... Gente como eu, tão distante disso que dizem ser afeto...

Oh! Essa afeição que me afeta tão gravemente, que me faz sentir frio e abraçar o próprio corpo. Afeição que não deixa também de ser nome próprio de sentimento.
Tem gente que chama sentimento de merda, tem gente que o apelida de felicidade. E daí se esquece que sentimento vem e vai, vai e vem e o denomina de tristeza...

Sentimento na verdade é definição, ainda mais quando se ama... Articular amor é articular sentimento, tanto é que a maioria só se lembra do que sente quando ama. E quando se ama a gente esquece do bendito sentimento. Na verdade inverte sentimento por nome próprio, e depois de um tempo o nome vira sinônimo de amor e o amor acaba no fim voltando a ser sinônimo de nome...

È eu sei, é complicado esse negocio de sentimento. Complicado porque não se racionaliza e quando não se racionaliza a gente sente. Sentimento é isso, globo ocular em outro lugar e coração no meio da boca...

Sentimento a gente acaba explicando demais e compreendendo de menos.
Por fim sentimento não se esclarece, não se apostila... Acaba acontecendo. Quem tem sentimento sente.

Sentimento é isso e isso é sentimento.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Bookends


Aquele era um tempo, e que tempo era aquele,
Um tempo de inocência, um tempo de confidências.
Deve ter sido há muito tempo, eu tenho uma fotografia
Preserve suas memórias, elas são tudo que restam de você.

“Bookends( Simon and Garfunkel)”

Passo o dia olhando para o espelho, vejo muitas espinhas onde nada continha. È certo que algo mudou entre tantos pigmentos de castanho claro.
È certo que algo mudou nos móveis que guardo dentro dessas paredes carcomidas.
A televisão permanece desligada, o vídeo amontoa poeira do quintal. O violão permanece imóvel num canto na parede. Deixado ali, esquecido entre acordes fáceis que tentei aprender quando dezesseis era apenas uma promessa. Algo mudou, mas eu não sei o que é... Meu cabelo está arrepiado meio crespo, meio encaracolado. Não sei dizer, mas este rosto não é meu... Este rosto não sou eu!

Meus diplomas adoecem em pastas em cima do guarda roupa. Títulos, e provações que no fim não importam em nada. Eu tenho uma caixa, e nela guardo cartas e folhas de cadernos desenhadas. Ela permanece fechada em algum lugar em baixo da cama. Lá estão minhas memórias, meus discos antigos e um retrato do que foi um romance distante. Eu não deveria colecionar mágoas, afinal tudo passa e nada se guarda, não é mesmo? O passado foi virado, o futuro está longe e o presente, bem, ele é o hoje. É o agora, quando agora se tem.

Mesmo assim eu gosto de recordar, talvez seja masoquismo de uma época esquecida. O modo sensível de alfinetar os olhos disparando lamentações. Talvez seja apenas saudade, dessas que apunhalam pelas costas. Não importa o que todos digam, dizer adeus é camuflado, ninguém está pronto para uma despedida. E quando ela acontece. A gente se apega nas fotos, limita a memória em músicas, desperta a lembrança em anseios... Fotografias na verdade não servem pra nada. Mesmo rasgadas elas ainda germinam dentro da memória.

Eu ainda não sei se aquele sou eu... Pode ser um estranho qualquer. Alguém que se apossou dos risos, daquela expectativa de estar apaixonado. Sabendo que aquele cheiro de neblina invadindo o quarto, jamais aconteceu. E que se lembrar das noites ciganas olhando a lua, foram sonhos de calendários agora grifados. Meus pulsos sangram quando sinto que jamais sentirei como me sentia.

Não! É impossível ser esse cara, este olhar de abandono. È impossível acreditar que tais fotografias não passaram de momentos e que tudo está morto enterrado ali, naquela caixa de memórias.

Fiz meu cemitério embaixo da cama... A única lapide que constam datas e finalizações. Eu me esqueci... Acabei me esquecendo. Quando atirei aquelas folhas no fogo... Quando embebi em álcool todas as imagens. Paguei o preço apagando a mim mesmo...

E agora vivo como um estranho, um recém nascido sem memória... Me apaguei apagando você de mim.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

O último Incenso


" O Amor é velho, o amor é novo, o amor é tudo, o amor é  você"  

(Because, Beatles).

Havia cinzas esparramadas pela mesa, nos dedos entre tantas partes de seu corpo. Cheirava canela, dessas de crença indiana de amor verdadeiro. A fumaça circulava em pequenos pedaços brancos desenhando o destino que ele não sabia onde havia colocado. Talvez tivesse guardado seu destino numa prateleira na parte mais alta da casa. Inacessível pelo seu tamanho, inacessível por sua vontade. O destino restava esquecido, guardado, escondido nas lamentações que não transpassavam sua carne.
Junto à mesa havia a melodia mansa de um violino tristonho. O aroma amargo do café lembrava o gosto cítrico da saudade dos tempos da infância, quando o primeiro frio na barriga apareceu. Sentado na cadeira da escola, olhando dentro dos primeiros olhos mestiços que findavam sua alma. O sorriso sutil que despertava a primeira ágape* dos sonhos... A platônica da carteira à frente, a primeira garota por quem ele perdeu o fôlego. Tudo isso desaparecia com a fumaça do incenso, se dissipando no ar.
Por um breve momento ele notou os fios brancos do cabelo caírem sem querer. Metade dos seus dias passados, as rugas, a aposentadoria e tantas atividades que por mais que fossem bem-vindas não eram mais as mesmas. Escalar a pedra mais alta enquanto o oceano se debruçava em maresia. Memórias de um tempo que fugia nas vozes da roda de bar, no cheiro forte do absinto. A fada verde fora perdida na avenida da juventude e agora só o que lhe sobrava era permanecer na estação da velhice.Junto com os filhos crescidos, imagens em papel carbono espalhados pelo mundo.
Ruan permanecia casado na Irlanda, Olívia divorciada pela quinta vez em algum lugar da Zona Sul de São Paulo. E o envelhecido Luís Eduardo, pai e viúvo adormecia na sacada sentindo a brasa do passado evaporar pela visão.

—Talvez seja isso mesmo.

Dizia ele abrindo a janela. O incenso estava quase no fim, e o maço que restava ao lado do incensário evidenciava. Era o último incenso.

—É engraçado pensar que tínhamos tantos incensos espalhados pela casa —Continuou ele mantendo a chama acesa. Sua meta era preservar aquela chama até o final, quando restasse somente cinzas. —Éramos nós dois, pares conjuntos de tudo o que acreditávamos ser. Eu roubei o seu primeiro beijo e naquela época me admirava tanto por ter sido exatamente eu. Agora vejo que foi você quem roubou minha alma. Parados, inertes em nossas vidas, brigávamos desde o café da manhã até meados do jantar. Você tinha a calma de uma brisa e o sorriso de uma manhã de verão... Minha ninfa, minha eterna gueixa dos sonhos. Absorvida em livros de misticismo. —as palavras saiam engasgadas, Luís respirou profundamente e terminou sua fala — cada lembrança que tenho de você é um sentido que perco.

Lágrimas cheias derramavam alternadamente, preenchendo o quarto com suavidade de um sentimento imaculado. Os anjos choravam junto a ele, lacrimejavam por terem arrancado seu aspecto mais precioso. Sentiam culpa, por a terem levado.
Parado com os pés inertes no chão, as cinzas logo eram limpas pelas lágrimas que caíam por cima de sua mão. O significado de tal lamúria estava num bilhete minúsculo amarelado pela exposição ao tempo. Estava escrito numa caligrafia sutil:

“Cinnamon, Meu bem. Hoje o nosso aroma é de Cinnamon, canela para ser mais exata. Ternura e Harmonia, meu amor.  È o que desejo para nós nesse momento... São quinze anos (quase dezesseis) e ainda vejo você com os mesmos olhos de quando completamos sete dias. Por isso meu bem, não desejo amor nessa data, pois sei que seria gananciosa, pois o que sentimos um pelo outro já é suficiente por mais de uma década... Eu te amo, Luís”.

O bilhete balançava com o vento que entrava como um intruso pela casa. Tocava sua face como um carinho imergido do silêncio, numa caricia invisível e sem tato. Aquele momento para ele significava dor e sentimento, já que ele presumia que o vento calmo queria lhe dizer algo.
—A gente nunca sabe o dia em que um desastre vai acontecer... Hoje eu sei que a neblina quando se torna negra é um prenuncio que algo de ruim está por vir. Naquela tarde de dezembro a neblina cobria o céu. Como sempre a primeira coisa que fiz quando acordei foi olhar para o seu lado da cama. Tive um espanto quando encontrei só cobertas remexidas. Desci as escadas notando a casa muito quieta. As crianças dormiam cada uma em seu quarto, fui até a cozinha, uma vez que meu coração dizia que você estava ali! Afinal era o que você fazia, zelava por nosso bem estar, preparando o café da manhã.
Quando não te encontrei na cozinha fui em direção à garagem. A maioria das mulheres prefere o banheiro por causa das loções e dos cremes de cabelo, mas você adorava a garagem.
Desde que viajamos para o interior de Goias e você aprendeu com aquele hippie que usava a camiseta do Bob Marley como transformar essências em incenso, vivia fazendo experimentos o dia todo. O melhor incenso, a melhor mistura... Tenho que ser sincero—Soluçava ele com um sorriso taciturno.—Eu adorava servir de cobaia sentindo os cheiros daquelas “varetinhas” aromáticas que você fazia. E quando menos esperava acabei amando sua arte em talhar incensos, assim como amava cada pedacinho de você.

O dialogo com o silêncio se tornava intenso, confissões saiam de sua boca. Anos guardando aquela dor e naquele momento o vazio havia transformou-se nela. Seu coração suspirava  trazendo a ilusão que aquelas palavras iam direto até ela. E ali ele conversou com o céu, falava em direção ao paraíso. Que permanecia além do teto daquele apartamento desgastado.Depois de algum tempo, Luis continuou:

—Quando cheguei até a garagem notei que o carro não estava ali, minha surpresa foi grande quando olhei em cima da mesa, e observei entre pedaços de resina e potes de vidro. Estava uma caixa com um laço vermelho, junto a um bilhete cravado na lateral... Foi então que eu soube, aquilo era uma surpresa pra mim! Mas por que uma surpresa? Afinal não passava de um sábado qualquer. Resolvi esperar, e fazer café para as crianças. Mas você não apareceu para o café. E tão pouco apareceu para o almoço... Quando o telefone tocou. Queria ouvir sua voz, mas era um homem... Falava algo sobre um acidente de carro e você num hospital! Minhas pernas tremeram quando pensei na possibilidade de algo ter te acontecido... Deixei as crianças com a vizinha e fui até o hospital . Acelerei o carro e passei diante os semáforos . Tendo em mente que se fosse rápido, ainda podia fazer algo. Quando cheguei no hospital ouvi da boca de um daqueles doutores:
"Fizemos o possível, Senhor... no entanto... sua esposa não..."
—Helena! Não!!!!!!! —Ele gritou enquanto seus braços cruzavam instintivamente abraçando si próprio,  sua mente o levou de novo para àquele lugar. Depois de um longo intervalo, ele prosseguiu.— Eu ainda me lembro o quanto eu gritei por você na esperança que aquilo fosse apenas um engano. Eu não devia, mas quis ver o teu corpo... E você estava tão linda meu amor, ainda carregava nossa aliança... Ainda tinha lábios rubros, e ali preso diante súplicas de volta, foi impossível me despedir de você.
Corri para o carro e desafiei os faróis outra vez. A morte não me aceitou, e quando notei, entrava em casa novamente. Corri para suas roupas, queria sentir teu cheiro, precisava do seu colo, eu precisava de você! Abracei camisetas e vestidos que permaneciam jogados fora do guarda roupa. E em meio aquela dor me lembrei daquele embrulho... Ainda cambaleando, fui até a garagem. Abri aquele embrulho, e aquelas palavras entraram dentro de mim... Me culpei diante da dor... Me culpei, por ser exatamente a data do aniversário do nosso aniversario de  casamento e eu sequer havia me lembrado até aquele momento.
—Havia muitos incensos junto aquele bilhete. Estavam tão perfumados que tive dó de acender. Aquele cheiro de canela me fez ter forças para cuidar de tudo. Criei nossos filhos. E por algum momento enxerguei o teu rosto neles, especialmente em Olívia. Os dias se foram e sua ausência me sufocava, tive dores de solidão em todo instante fora da rotina...
E assim meu amor cada dia quando o escuro se aproximava, acendia um dos incensos que você havia deixado como presente naquele mesmo embrulho. E aquela chama me levou a segurar os pontos até aqui. Por todas as datas, em todos nossos aniversários. Acendi um incenso para chegar até você. Mas e agora , Helena? Agora, acendi o último incenso e quando ele se apagar? Então o que será de mim? O que será de nós? Acho que única coisa que devo dizer é que te amo meu amor... Mas acho que você sempre soube disso.

Luís fechou os olhos por alguns instantes, enquanto o vento levava as cinzas a dançar numa valsa de amor eterno que circulou num aroma doce por todo quarto e logo desapareceu pela janela para fora.
O último incenso então se apagou.
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*Ágape (em grego "αγάπη", transliterado para o latim "agape"),é uma das diversas palavras gregas para o amor.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

AHHHHHHH!

Que vontade de gritar... Já Fevereiro e posso dizer que ainda estou em Julho e nem enxerguei Janeiro passar. Eu trabalhei como ”free lancer”, enxagüei pratos. Escutei Rolling Stones, dormi cedo, dormi tarde. Mas parece que o tempo é o maior estripador de todas essas agonias. Tento escrever e tenho crises de perfeccionismo, mesclados a vícios de linguagem. Repito sentimentos, repito palavras. E por isso tenho vontade gritar.... Por repetir coisas, ou pelas coisas se repetirem.
Vida, passos, passos vidas. Livros cheios de traças, um escritor cheio de traças... Um conto de cinqüenta e nove folhas que nunca se adapta num final adequado. Casa e paredes que parecem estar interligadas numa atmosfera paranóica de pó e fuligem. Alguém entende o que é loucura? Na idade média acreditava-se que a loucura era a marca da besta (dá pra acreditar....?). No século dezenove, a loucura virou sinônimo de genialidade. A moda era um matemático sofrer de esquizofrenia ou sair de pijamas pela rua.
A loucura é relativa, todos nos sofremos de alguma dose que nos enlouquece. Fixação por chocolates, fobia por aranhas. È exato, todo ser humano sofre de alguma anormalidade.
A minha com certeza deve ser alienação combinada com vários complexos dramáticos. Algo como superar uma queda, sempre aguça minha mente. Sou mestre em introspecção, mestre em ficar perdendo meu tempo com blogs e algo do tipo. Mestre em voltar para o limbo sorrindo e logo voltar chorando.
È, eu assumo minha loucura. Assumo dar cambalhotas para trás na faixa de pedestre. Assumo fazer caretas para crianças com menos de sete. Assumo sofrer uma mutação ligada as máscaras cênicas do teatro... Algo meio Otelo/Chaplin. Substancia terrível de tristeza e alegria em que pulsa desesperadamente em menos de dez segundos.
Levantar risos, fazer chorar...
Moldar o rosto, ter nariz de palhaço, feição de mímico... Coração de poeta que perdeu sua amada. Aborreço com minhas definições de mim mesmo. Mas fazer o que, o grito é meu... Afinal como diria Lispector (Lispector? Isso até parece marca de aspirador).

“O que não me falta é ter esse direito ao grito”.

Então eu grito, ou melhor, escrevo que gritei... Ou grito enquanto escrevo. (Grito camuflado).