terça-feira, 25 de agosto de 2009

Importa?


Não importa que eu tenha que rodar o planeta todo. Não importa que eu tenha que perder minha lucidez. Que eu fale com os cães. Que eu deseje pular da torre mais alta de cabeça pra baixo.
Não importa que o amor seja um suicídio psicológico. Que eu tenha que entregar bilhetes de correio elegante numa festa Junina.

Não importa que eu fique louco de paixão, olhando as estrelas. Difamando Afrodite, sendo mal criado na porta da estação. Não importa!

Que eu seja chamado de alucinado, incoerente... Sórdido, romântico maltrapilho!
Estranhamente, Não importa!
Que todas as minhas ex mulheres sejam alcoólatras assumidas, maquiavélicas consumidas, viúvas ou homicidas de sentimentos sinceros.
Pouco me importa!

Que eu perca todos os meus talões de cheques buscando passagens para o novo México. Que ande até o ponto mais elevado das colinas dos Andes.
Que eu fique ébrio de solidão. Fatiado de paixão e consequentemente descrente de todo o amor que há no mundo.

Eu vou achar você!
Nem que eu tenha que girar o mundo todo. Nem que eu tenha que atirar nos semideuses. Desbravar a Antártida e ser morto por um desses pingüins bastardos.
Não me importa: se for Eros, Pragma, Philia, Storge, Agape ou simplesmnte amar fazendo amor.

Vou te encontrar em algum lugar! Em riba, na lagoa! Na fila da pipoca ou olhando a mãe da água dentro duma garrafa de ypoca.


Ah! Se eu não vou Vou te encontrar!

Não importa o que há para se encontrar, eu vou mudar o mundo todo... Viajar dimensões! Acabar com esse tempo!Ser imperador dos sete céus!

Até se eu tiver que vender a minha alma para o pecado, eu vendo!

Afinal, isso não importa! Se for pra te encontrar dez segundos, nem que eu tenha que virar astronauta. A gente se encontra e fica feliz...Assim por toda vida!
Importando somente com que há pra se importar. Nós dois!

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Vide-c


Você que observa os cânticos na igreja... Que anda no transito lento almejando em ser o que nunca será.

Você que vaga no quarto, se deita na cama decidido a morrer... Você! Você! Você.

Que transa com desconhecidos, coleciona corações de vidro... Que já perdeu alguém e agora vela por espíritos. Você que se dedicou tanto e enxergou tudo arruinado na véspera do último feriado.

Você! Você! Vocês...

Que escuta música alta para esconder uma alma vazia. Que esconde cólera por nunca ter baleado amor. Você que culpa a todos e nunca a si mesmo.

Você que não aceita que errou e se levanta do leito sabendo que chorou. Você que tem o nome rabiscado que segue as palavras idiotas de um mundo perfeito... E não acredita no diabo.

Você!

Que sacrifica vegetais, e se senta com animais na mesa do jantar. Que toma suco de pêra e deixa a porta da geladeira aberta. Que gosta de cenouras, mas não come quiabo. Que sonha em ser ator e usa uma máscara cênica de varejo.
Você!Você! vocês...

Que se masturba embaixo da cama... Que se enfurece por não ter genitália, que anda de um lado pro outro e se conturba por perder seu pijama.

Você! Você! Vocês...

Que mente em terceira pessoa... Que espera por um namoro raro, que se sente perdido por ter fracassado. Você que anda lado a lado, contando qualquer espaço sentido o torso transpassado lamentando não ter sido...

Você!

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Belas Verdades


Relógio o desperta. Nove horas carros passam a eletricidade urbana desencadeia vida. Mal humor do homem grisalho. Impaciência do contador de custos. Um avião cai, pessoas morrem. Corpos alagados de tanta água salgada. Ume menina de cinco anos sobrevive, milagre? Ou maldição de estar em meio aos corpos podres dos próprios pais?

O relógio o desperta, nove horas e a sensação de peso grita entre seu espírito. O IPI está baixo, o povo cego e os carros avantajados. Analfabetos na fila do pão. Deus está morto pelos livros científicos. O macaco é adão, e o éden é uma casa de mulheres banguelas que aceitam vale transporte em troca de um bom sexo. Camisinhas estouram, garotas jovens engravidam por rasgarem demais.

O relógio o desperta... Nove horas! A menininha de cabelos cacheados se faz de esperta. A TV comercializa crianças por audiência. Inocência em baixa. Neverland é louvado por flores. Pedofilia em alta. Estupro e o vaticano coexistem numa mesma frase: Padres consomem crianças em baixo da batina.

O relógio o desperta, nove horas. Sociedade interrupta, robôs que brincam com a humanidade. Porcelanas em cacos retalhados no lixão, pessoas passam fome. Satisfação completa do homem gordo no rodízio, vacas, bois e porcos. Consumidos! Enlatados e fritos! A áfrica não fica muito longe daquela esquina de papelão.

O relógio o faz dormir. O estrume é encoberto por lavanda e o som alto diminuído por cantos de pássaros alpinos. Belas verdades, fator nosso de negação.

domingo, 12 de julho de 2009

BR 8




A neblina mancha o para brisa do carro, meu rosto oscila na sombra do vidro. Nas arestas das gotas, avanço para um dilúvio cristalino. Todas as minhas tristezas escorrem pelo retrovisor. Arvores passam diante minha visão, distantes do meu toque, perto do meu coração.

O rádio desencadeia músicas antigas de um rock imortal.


Acelerador? Esta nos meus pulsos, acelera na medida em que abraço a estrada! Deixo o passado de lado embarcando num destino de bilhões de possibilidades. O tempo não existe, ele se espalha na quilometragem de cada placa. Tempo é passageiro desses que ficam só de passagem e somem na primeira alvorada assim que o sol nasce.


Transito por várias paisagens, dessas que arrancam nossas emoções e nos moldam a carne aumentando o anseio da estação atual. Cada fuligem de outono, cada nascer de primavera... Estações me lembram gente, até mesmo algumas que quero esquecer.
Se pudesse vivia tudo num dia só... Isolamentos de inverno, apego intenso de um verão disperso. Tudo isso emoldurado nessa paisagem de outono.
Estrada para aqueles que não possuem asas.

O volante desliza em minhas mãos, as curvas condizem em paisagens novas. Voar no asfalto em sessenta por hora. O horizonte diminui num raio laranja, o sol se despede da estrada. Woodstock está longe de mim, presa num tempo que não vivi.


A estrada consome minha saudade... Aquela da infância que vendi. De pessoas que fugi.
Estrada que me faz fugir.


Estende-se em sua faixa negra. interminável viagem para qualquer lugar.


Longe de todo mundo, das nuvens, do mar. Longe mesmo, bem longe assim...


Longe até mesmo de mim.

sábado, 18 de abril de 2009

Quando a morte invade sua sala



“Coração, por que tremes? Vejo a morte
Ali vem lazarenta e desdentada. ..
Que noiva!. . . E devo então dormir com ela?
Se ela ao menos dormisse mascarada!”

Álvares de Azevedo


O vento vibra as folhas das arvores, crianças dormem quietas num sono inocente, envolvidas na profundidade aconchegante de seus cobertores. Nas ruas os panfletos dançam acompanhados de sacos plásticos que bailam emudecidos, regidos pelo compasso do vento... Navios ancoram no porto, suas velas ainda se mexem. A noite é fria para corações partidos. O vento traz cinzas do passado, os quartzos balançam tilintados pela dor dos perdidos. Estes que ancoram não como os navios, mas como um espírito intenso de saudade estirado a longa noite. Poetas destilam poesias, enquanto o vento docemente os acaricia feito brisa.


Uuuuh! Ouve-se o som do vento, elevando os gritos imaculados guardados na garganta. A mulher estrangulada, o lobo que uiva, o menino que chora abandonado em um cesto.
Uuuuh!! Diz o vento em resposta maldita, amedrontando aqueles que ainda serão julgados pela lei do destino.

Uuuuh!!! Respira o homem aliviado vendo a morte sentada na sala de estar. Sabe ele, aquele é o fim. Partira junto ao último lançar do vento.


—Não haverá mais tempo de fechar as janelas, elas permanecerão abertas. Agora o que me resta é somente redenção.


Dizia o suicida com os pulsos cortados. Ele sangra calmamente, pensando em algum alivio definitivo que está prestes a chegar. Alivio que para ele é definido em não existir. Seu único pensamento se resume numa chance de não ser cheio de marcas, de não ser o alvo dos erros.

A ação havia sido minutos atrás e mesmo assim ele ainda conseguia sentir o ar frio da lâmina chocando-se a pele, em seguida somente ardor. Sangue havia jorrado manchando toda cama, os corredores até a sala. Observando o teto sua vista logo estremecia focos paralelos ligados a infância que lhe surgia à mente,sua vida ia embora junto ao sangue que coagulava aos poucos no chão.

Não tinha ele outra deficiência além da ausência de fé. Portava um corpo tão saudável que há anos não se gripará. Não tinha sequelas no cérebro ou apresentava chagas de uma cegueira... Ele não media assuntos com probabilidades, não existia aquela palavra em seu dicionário mental. E assim, simplesmente por falta de uma palavra, ele cortou os pulsos, jogando fora então todas probabilidades que sua vida tinha para o conserto. Talvez ele não tivesse realmente motivos de tomar aquela decisão. De riscar o corpo em escala com uma tinta incapaz de ser encoberta. Afinal ele não propunha motivos a si mesmo para o recomeço. E através disso assinava seu acordo em definitivo, sem entrelinhas... Somente com um ponto final.


E Naquela imensidão, ele a atraiu. Como se um ritual fosse realizado trazendo-a dos sonhos até a vida. Invocada por aquela poça de sangue transbordante que permanecia concentrada no meio da sala. Sangue vivo, escasso e bem vermelho, transparecia como um neon carmim.

Em cima da mesa postava-se o envelope escrito num tom azul numa boa caligrafia. Era sua despedida para os poucos que haviam compartilhados os momentos de vivência. Sua explicação para que outros soubessem o quanto havia tentado, mas de fato não havia conseguido.
Como um bom suicida, ele havia deixado sua mensagem. Algo que definiu depois como cláusulas de aborto, encoberta com uma histeria de pessimismo. Tudo estava conforme sua improvisação. Tudo menos a possibilidade de encontrar a morte em pessoa enraizada na sua sala, observando o vendaval que se estendia.

—Eis me aqui! Sangro meus pulsos por você, leve-me.


Disse o suicida para os olhos negros da morte, aceitando a idéia que ela estava ali pelo simples motivo de levar sua alma.
A morte que permanecia sentada em um dos sofás de costas para janela. Vestia um manto preto, mostrando um porte fino e bem integro.
O silêncio permaneceu, ainda que as cortinas beirassem o teto. Novamente o Suicida tentou:

—Eu terminei minhas preces, pode me levar. Não preciso mais de votos de despedida, esperei muito tempo por você. Estar aqui e olhar nos teus olhos, poder sentir o teu cheiro. Saber que minha única saída é me entregar nos teus braços....

—Fala comigo como se eu fosse tua musa - Cortou a imponente criatura num tom vibrante feminino—Não sou nada mais que causa natural na vida de cada ser. Por que me desejas tanto? Sequer sou bela?

—A beleza é apenas um conceito estabelecido por aquele que a retrata. O pintor que tece sua obra não limita a outros olhares se não o próprio. Para mim eis linda como forma distinta, minha última crença... Por favor, envolve-me nos teus braços, eis a única que pode aliviar o sofrimento de um desgraçado entregue ao desespero. Veja!—suplicou o suicida mostrando os pulsos cortados para a morte — Já está feito, não há mais volta... Acho que desde começo nunca houve crença de volta...

—Eis amante dos versos pelo que posso escutar. Só um eterno romântico falas na beleza com tamanho potencial puro. O problema com os românticos é que são estimados num lamento profundo, num drama reluzente. —A morte subitamente se calou, deixou-se ser absorvida por um silêncio cheio de sons urbanos e assim continuou su fala— Até parece que não me conhece, moço dos pulsos cortados. Sou aquela que vaga na escura noite! O ar frio sentido na espinha... A dona das moradas fúnebres. Se me conhecesse realmente não teria essa crença poética.

Respondeu a morte transparecendo uma calma de séculos, mostrando desdém pela crença do suicida. Ela que rapidamente levantou-se do sofá se agachando no chão frio. Logo tirou o capuz preto e olhou fixamente para o suicida.

—Então é essa face da morte!

Espantou o suicida deparando-se com algo que jamais imaginaria ver... Uma face tão humana quanto a dele. Olhos negros, pele pálida e cabelos cacheados numa beleza mórbida e obscura. A morte para o espanto do suicida, trazia uma beleza divina e incomun.

–E O que você esperava?

Indagou a morte para suicida notando sua expressão de fascínio.

—Eu não sei! Algo como um esqueleto, talvez.

— Vocês humanos sempre caem no mito da putrefação... Nem tudo é matéria sabia! Eu não sou somente o fim da carne... Sou vida também ora... Afinal tudo que fenece se transforma em existência. Quanto a minha face, eu poderia ter qualquer forma, mas prefiro parecer com vocês...
—Nós?

Perguntou o suicida confuso.

—Sim vocês!—Continuou a morte, agora caminhando pela sala olhando atentamente para os quadros na parede— Mortais... Humanos... Seres bípedes que se dizem operados pela inteligência e negligenciados pelo instinto. Vocês que transformam quase tudo em caos. Vocês que ferem o solo, agridem a terra, e mesmo assim fertilizam a vida. Vocês que conseguem por intermédio de um botão falecer mais existências do que eu consigo em uma década. Matam por números, riquezas e derivados desse meio terreno... E alguns—Dizia ela voltando a face para o suicida— até mesmo descontentes em tirar a vida do outro , matam a si mesmos...

Pela primeira vez o suicida pensava no dano que causara a própria vida.. Por um momento ele permanecia duvidoso pelas palavras ditas pela morte.
—O que acha agora meu caro... Não sou eu tão humana quanto à própria humanidade?

—Sim! É completamente humana...—Respondia o suicida enquanto a morte concordava mexendo a cabeça— E digo mais.... È tão humana quanto é tagarela.

—Como assim Tagarela?

—Você fala demais! Juro pensei que a morte tivesse um ar de descanso eterno. Mas não! tudo que vejo são ladainhas. Como se pode descansar com ladainhas sobre o quanto nós humanos somos desprezíveis? Acha que eu não sei de tudo isso?

—Eu acho que ...

—Com certeza você acha alguma coisa não é?... Mas deixa eu te falar, você não tem direito de achar nada. Você invade a minha sala e fica pregando essas filosofias de terceira... Mas que merda!

O suicida subiu numa nova postura levantando-se do chão, estava furioso. A morte esperava calmamente por uma brecha entre os gritos e discordias do suicida. E essa brecha se sucedeu ela disse o interrompendo:
—Eu não quero que você acolha as minhas filosofias e também não sou uma invasora e sim uma convidada afinal, quem causou a própria morte aqui?

—Qual é o seu propósito?
Cortou bruscamente o suicida bloquenado a pergunta.

—Matar, trucidar aniquilar... Cessar algo de sua existência.

—Eu não estava me referindo ao seu objetivo no universo.

—Ah! Desculpe sou meio direta... Eu...—fitou ela para paredes engasgando as palavras, tentava barra sinceridade mecanica que posssuia.— Apenas quero conversar com você, entende? Bater um papo.
—Não entendo, como assim um papo?

—Mas você é meio lentinho né... Um papo! uma prosa! um dialogo! Eu respondo suas perguntas e você responde as minhas... Aproveite, a maioria não tem essa oportunidade!
Exclamou ela sentando no sofá novamente.

—Oportunidade? Não vejo nenhuma oportunidade... Não quero conversar, eu quero morrer. Apenas quero morrer... È pedir demais é? Quem eu tenho que matar aqui, para poder morrer.
—Por Deus! Você consegue mesmo irritar... Olha o que está diante dos teus olhos... Você tem a oportunidade de questionar a morte... Entende? Dialogar comigo, saber o que virá... Esse é o custo para eu te levar. Ah... Sacou?
—Não me diga que pra morrer também tem preço?
—Capitalismo celestial meu caro, eu exijo algo e você me dá... Achou que era só cortar os pulsos e pronto. E então o que me diz... Aceita as minhas condições de ter um dialogo?

Continua....

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Em sentimento há sentimento!



Uma vez alguém me perguntou sobre sentimento...

Essa coisa desvairada que toca gente como eu. Gente assim tão amiga do papel, gente que não aguenta uma batida forte no peito, que enaltece com o brilho nos olhos... Gente como eu, tão distante disso que dizem ser afeto...

Oh! Essa afeição que me afeta tão gravemente, que me faz sentir frio e abraçar o próprio corpo. Afeição que não deixa também de ser nome próprio de sentimento.
Tem gente que chama sentimento de merda, tem gente que o apelida de felicidade. E daí se esquece que sentimento vem e vai, vai e vem e o denomina de tristeza...

Sentimento na verdade é definição, ainda mais quando se ama... Articular amor é articular sentimento, tanto é que a maioria só se lembra do que sente quando ama. E quando se ama a gente esquece do bendito sentimento. Na verdade inverte sentimento por nome próprio, e depois de um tempo o nome vira sinônimo de amor e o amor acaba no fim voltando a ser sinônimo de nome...

È eu sei, é complicado esse negocio de sentimento. Complicado porque não se racionaliza e quando não se racionaliza a gente sente. Sentimento é isso, globo ocular em outro lugar e coração no meio da boca...

Sentimento a gente acaba explicando demais e compreendendo de menos.
Por fim sentimento não se esclarece, não se apostila... Acaba acontecendo. Quem tem sentimento sente.

Sentimento é isso e isso é sentimento.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Bookends


Aquele era um tempo, e que tempo era aquele,
Um tempo de inocência, um tempo de confidências.
Deve ter sido há muito tempo, eu tenho uma fotografia
Preserve suas memórias, elas são tudo que restam de você.

“Bookends( Simon and Garfunkel)”

Passo o dia olhando para o espelho, vejo muitas espinhas onde nada continha. È certo que algo mudou entre tantos pigmentos de castanho claro.
È certo que algo mudou nos móveis que guardo dentro dessas paredes carcomidas.
A televisão permanece desligada, o vídeo amontoa poeira do quintal. O violão permanece imóvel num canto na parede. Deixado ali, esquecido entre acordes fáceis que tentei aprender quando dezesseis era apenas uma promessa. Algo mudou, mas eu não sei o que é... Meu cabelo está arrepiado meio crespo, meio encaracolado. Não sei dizer, mas este rosto não é meu... Este rosto não sou eu!

Meus diplomas adoecem em pastas em cima do guarda roupa. Títulos, e provações que no fim não importam em nada. Eu tenho uma caixa, e nela guardo cartas e folhas de cadernos desenhadas. Ela permanece fechada em algum lugar em baixo da cama. Lá estão minhas memórias, meus discos antigos e um retrato do que foi um romance distante. Eu não deveria colecionar mágoas, afinal tudo passa e nada se guarda, não é mesmo? O passado foi virado, o futuro está longe e o presente, bem, ele é o hoje. É o agora, quando agora se tem.

Mesmo assim eu gosto de recordar, talvez seja masoquismo de uma época esquecida. O modo sensível de alfinetar os olhos disparando lamentações. Talvez seja apenas saudade, dessas que apunhalam pelas costas. Não importa o que todos digam, dizer adeus é camuflado, ninguém está pronto para uma despedida. E quando ela acontece. A gente se apega nas fotos, limita a memória em músicas, desperta a lembrança em anseios... Fotografias na verdade não servem pra nada. Mesmo rasgadas elas ainda germinam dentro da memória.

Eu ainda não sei se aquele sou eu... Pode ser um estranho qualquer. Alguém que se apossou dos risos, daquela expectativa de estar apaixonado. Sabendo que aquele cheiro de neblina invadindo o quarto, jamais aconteceu. E que se lembrar das noites ciganas olhando a lua, foram sonhos de calendários agora grifados. Meus pulsos sangram quando sinto que jamais sentirei como me sentia.

Não! É impossível ser esse cara, este olhar de abandono. È impossível acreditar que tais fotografias não passaram de momentos e que tudo está morto enterrado ali, naquela caixa de memórias.

Fiz meu cemitério embaixo da cama... A única lapide que constam datas e finalizações. Eu me esqueci... Acabei me esquecendo. Quando atirei aquelas folhas no fogo... Quando embebi em álcool todas as imagens. Paguei o preço apagando a mim mesmo...

E agora vivo como um estranho, um recém nascido sem memória... Me apaguei apagando você de mim.